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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Discos Voadores - A invasão.


No ano ode 1970, estava eu agregado ao 9º Regimento de Infantaria, já que minha QM havia sido extinta, não havendo portanto vaga para mim no efetivo da Unidade. Aliás, em nenhuma outra Unidade do Exército.

No ano 1967, não fizera o Curso de Formação de Sargento em decorrência de uma hospitalização para uma intervenção cirúrgica de uma hérnia inguinal, o que praticamente me alijaria da carreira, porém não deixei a peteca cair e continuei por mais uns anos no serviço ativo.


Em 1970 fui compulsoriamente matriculado no CFC-Curso de Formação de Cabos, a fim de revalidar meu curso para outra QM o que não estava em meus planos, porém, assim sendo ficaria mais um ou dois anos ano no Exército, organizando minha saída da vida militar, para alegria de alguns poucos e tristeza para a maioria esmagadora de Oficiais e Sargentos.


Este foi para mim, por um lado um período tranquilo, já que não estaria ali competindo com ninguém, era cabo velho e qualquer que fosse o resultado eu não ficaria na tropa, nem mesmo seria rebaixado.

Para Diretor do referido curso fora indicado o competente Capitão Justo Botelho Santiago, que bem assessorado faria o melhor curso até então realizado naquela Unidade.

O Capitão levou como aprovisionador do Curso o então 1º Sargento Aldo Borges, que exerceria a função de subtenente, já que era da mesma Companhia do Capitão Justo, a 4ª de Fuzileiros, Companhia onde eu estava agregado.

Ou seja, a “bóia” estaria garantida, e de excelente qualidade, pois o então Primeiro Sargento Borges era fera em organizar o rancho.

                          CFC 70 - Eu ao centro de camiseta branca.

Sabendo de minha trajetória no Exército o referido Capitão, tão logo formado o contingente, me designou para os serviços burocráticos, desenhos, datilografar polígrafos e outros afazeres dentro da parte de instrução.

Um mês após o início do Curso, essa tropa sob o comando do referido e competente Capitão rumou para campos próximos ao Laranjal, em Pelotas, para ali montar acampamento, onde entre outras coisas faríamos vários treinamento e instruções.

No segundo dia fui escalado pelo Capitão para algumas atividades, tendo em vista as instruções de tiro diurno, tiro noturno, morteiro, lança-rojão, granadas-de-mão e metralhadoras.


Determinada noite fizemos o treinamento de tiro noturno, com balas traçantes, tipo de munição que ao ser disparada deixo no ar uma risca vermelha, e entre outras coisas serve para indicar um local que deve ser atacado durante a noite, pois não é de utilização usual em combate.


Os alemães usavam essa munição em seus aviões, nos combates noturno, como forma de abater o moral dos pilotos da RAF e depois dos Aliados e Soviéticos.

Todos os soldados do Curso sentados em uma ravina ouviram a preleção do Capitão sobre o tiro com balas traçantes e tão logo feita sua exposição peguei meu fuzil o famoso FAL e de mão de três carregadores, num total de 45 tiros fiz uma demonstração aos soldados com aquelas maravilhosas balas traçantes.

Indicando com a trajetória da bala traçante o alvo que deveria ser atacado e dando tiros a esmo em duas diferentes direções.

Quase 21 horas e riscos vermelhos cortando o céu naquela noite escura.

Após a demonstração feita por mim, os três sargentos monitores junto com a tropa fizeram centenas de disparos com munição do mesmo tipo. 


Lindo de se ver, o céu negro cortado por infinitos riscos vermelhos que se perdiam de vista, todos eles disparado de oeste para leste e de oeste para nordeste.

Maravilha.

Na manhã seguinte logo após o toque de alvorada, todos foram para o rancho, em meio às árvores onde seria servido o café com leite, muito pão com schimier e bananas à vontade para a tropa.

Estava eu conversando com o Capitão, em pé ao lado da fogueira, quando aproximou-se  o Sargento Borges dizendo ao Capitão que iria até a Colônia Z3, comprar peixes para o almoço. 

O dia recém começava a clarear.

O Capitão autorizou e mandou que eu acompanhasse o Sargento Borges.

Os dois graduados com suas armas na cintura e mais um soldado motorista, foram em um grande caminhão do Exército rumo a tal colônia de pescadores, a Z3.

Era uma vila pobre, as margens da Lagoa dos Patos, que ainda existe, mas vão-se 44 anos, nunca mais voltei por essas plagas.

Quando o caminhão adrentou à vila, com seu motor possante fazendo enorme barulho, antes das 6.30 da manhã, o povo da vila saiu de suas casas e cercou o caminhão.

Não sabia o que estava acontecendo, então com o caminhão ainda em marcha me pus em pé do lado de fora da cabine, momento em que o motorista estancou a marcha.

Todos os civis, mais de 20 pessoas, homens, mulheres e crianças, aglomerados em minha volta, queriam falar, mas não os entendia, já que todos falavam junto.

Levantei a mão direita e pedi que se organizassem para falar, pois assim não conseguia entender e se houvesse algum problema grave nós poderíamos resolver.

Desci do estribo do caminhão, momento em que o Sargento Borges também desceu e ficamos cercados por homens e mulheres humildes que se notava em seus semblantes que havia acontecido algo muito sério e apavorante.

Um dos homens, parecendo ser o líder daquela comunidade perdida no meio do nada, apavorado, meio tropeçando nas palavras me disse:


- Ainda bem que vocês vieram, pois eles estão invadindo a Terra.

Outro pescador falou:

- Nós todos vimos. Foi uma coisa horrorosa. Passamos a noite em claro.

- Calma pessoal – Disse o Sargento Borges – O que está acontecendo.

Uma mulher gritou do meio do povo:

- São os discos voadores. Nós vimos disparando raios.

Dei uma rápida olhada em direção dessa senhora e imediatamente pedi ao que parecia ser o líder comunitário que nos explicasse o que estava acontecendo.

O pobre homem apavorado então relatou que ele e outros passaram a noite em vigília, pois viram para o lado do Laranjal muitas luzes cortando o céu como se fossem raios vermelhos, em várias direções, e se nós já estávamos ali tão cedo é por que alguma coisa de outro mundo estava acontecendo no local.

- Calma pessoal – disse – o que vocês viram esta noite foi um treinamento do Exército, pois estamos acampados a menos de dois quilômetros daqui.

Ai o Sargento Borges, meio rindo disse:

- Nós viemos aqui só para comprar peixe.

Segui conversando com os pescadores e seus familiares dizendo do que se tratava o treinamento e que era para eles se acalmarem, pois nada mais eram que balas traçantes.

O Sargento Borges afastou-se do grupo com dois pescadores a fim de comprar peixes.

Meio desconcertados ficaram a me olhar, enquanto eu dava várias explicações àquele povo humilde e apavorado que juravam ser alienígenas invadindo a nossa Terra.

Voltou o sargento Borges e me disse:

- Não tem peixe.

Voltamos para o acampamento de mãos abanando, mas tranquilos, pois havíamos acalmado aquele povo humilde que estava apavorado com as luzes do outro mundo.

Luzes que apesar de ter apavorado aquele povo, transformara a sua noite em um espetáculo como nunca haviam visto até então.

Fico imaginando o pavor de uma gente humilde vendo aquele espetáculo sem imaginar o que poderia ser. E é assim que surgem tantas e tantas lendas. Pelo desconhecimento, pela ignorância e pelas crendices.

Mas não tinha peixe.

Pô!







2 comentários:

  1. Olá Pedro Teixeira.
    Um grande abraço deste extremo ocidental da Europa, direitinho ao sul, com votos de Ano Bom 2015. Obrigado por tudo.

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  2. Que honra, meu caríssimo Carlos.
    Um grande abraço e um belíssimo ano para você e a todo o povo português.
    Também obrigado.
    Saúde e paz.

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