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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

José Saramago





José Saramago, nasceu em 1922 em Azinhaga em Portugal e faleceu em 2010 nas ilhas Canária na Espanha e seu primeiro serviço foi como metalúrgico, mas sua vida seria como escritor reconhecido internacionalmente com seus maravilhosos livros como Ensaio sobre a Cegueira, Todos os Nomes, Memorial do Convento e o Evangelho de Jesus Cristo.

“Por que foi que cegámos, Não sei talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem”.

Sem rodeios passo a transcrever abaixo uma rápida entrevista deste que foi um dos mais fascinantes escritores portugueses, sobre a sua não crença.

As vezes eu digo.
Lê a Bíblia e perde a fé.
Porque?
Por que chamo a Bíblia de um manual de maus costumes.
É um catálogo de crueldades e do pior da natureza humana.
A Bíblia levou mil anos para ser escrita. Portanto, passou por uma quantidade de gerações e situações para ser escrita. Mas sempre a dominante é essa: Um Deus cruel, invejoso, insuportável.
O Corão, se não estou enganado, levou 30 anos ou perto disso para ser redigido.
Imaginar que um livro e outro, o Corão ou a Bíblia são de inspiração divina... Francamente!
Inspiração divina, como?
Que canal de comunicação tinha Maomé ou tinha os redatores da Bíblia com Deus que estaria dizendo ao ouvido aquilo que deviam escrever?
É realmente absurdo!
Nós somos manipulados, enganados, desde que nascemos!
Nós somos muito mais piedosos. Alguém que cometeu um delito e depois pagou, vai para a prisão, fica aí cinco ou dez anos, ou quinze anos e depois sai e integra-se.
Não!
No caso, no catolicismo (cristianismo) não há integração possível. A pessoa que pecou será condenada para sempre.
E o que é isso, alguém condenado para sempre?
É completamente idiota!
Há coisas muito mais idiotas, repare...
Antes da criação do Universo... Deus não fez nada. Não consta. Um dia não se sabe por que, decidiu criar o Universo.
Também não se sabe por que, nem para quê. Fez segundo a Bíblia o Universo em seis dias. Seis dias só, seis dias.
Descansou ao sétimo, até hoje.
Nunca mais fez nada.
Isto tem algum sentido?


Nada faz sentido, principalmente quando exércitos de condutopatas são manipulados por calhordas que no uso da verborragia insana de versículos vão conduzindo esses alienados para o sangradouro e ninguém contesta, pois contestar é proibido pelos ladinos que se dizem os portadores das palavras de deus e ainda são lerda e pateticamente chamados de homens de deus.


Que deus?

sábado, 22 de outubro de 2016

O CERTEIRO TIRO




Em 1943, corria solta a Guerra na Europa, milhões de vidas eram desgraçadamente ceifadas por conta de um austríaco louco chamado Adolf Hitler, seguido por toda a Alemanha demenciada pela dita pureza de raça. E nesse ano as tropas do Exército Vermelho cercaram e retomaram sua cidade histórica de Stalingrado, um dos maiores feitos realizados contra as forças invasoras alemãs, húngaras, romenas e as vexatórias tropas italianas. A União Soviética mostrava ao mundo que a agressão ao solo de sua Pátria não ficaria sem uma dura punição e consequente destruição do III Reich alemão.

Nesse ano nasceria a 12 de julho meu irmão Joaquim Luís, a alegria para meu pai duraria pouco, mas a levaria no coração, pois neste mesmo mês foi destacado com seu Batalhão de Infantaria para guarnecer o Porto de Rio Grande, onde havia, entre outras coisas, pequenas Refinarias e depósitos da Esso e da Ipiranga. A Companhia Brasileira de Petróleo Ipiranga foi a primeira destilaria do Brasil, fundada em 1934, na cidade de Uruguaiana, no meu Estado do Rio Grande do Sul e que no ano de 1937 instalaria uma Refinaria nesta cidade portuária de Rio Grande, próximo à Pelotas, hoje é a segundo maior empresa do ramo no país, possuindo quase sete mil postos de abastecimento de combustíveis.
Havia a possibilidade, segundo as autoridades de que navios ou submarinos alemães atacassem aquele porto, para darem inicio a uma invasão, já que a “alemoada” aqui em nosso Estado estava toda assanhada e queria ver o circo pegar fogo e transformar o nosso Rio Grande do Sul em enclave alemão na América do Sul, e sonhavam fazer parte do III Reich, com o apoio da Argentina que andava algariada com as ideias fascistas.
E depois muitos reclamam das surras que lavaram aqui dentro de nosso Estado pela Gauchada ofendida por esses traidores da Pátria que os acolheu, e os Gaúchos foram atrás e passaram o relho e o pranchaço nos alemães batatas. Obviamente não foram todos, mas uma boa, grande e desequilibrada parte, que até hoje não se considera brasileira. Muitos são racistas e continuam arrogantes.
Apesar da ausência de meu pai, mamãe, Maria Joaquina de Castro Teixeira, dava conta do recado em criar, mesmo que momentaneamente sozinha dois filhos, sendo um de colo.

Certa noite de agosto, Joaquim Luís, com muitas cólicas custava a pegar no sono, chorando muito. Mamãe, numa época sem recursos em que se curavam dores e doenças a base de chás, nada tinha o que fazer para amenizar as cólicas do filho, a não ser embalá-lo em seus braços, assoviando uma canção de ninar e caminhando quase às escuras, já que havia os tais blackouts, o que na verdade nem precisava, pois o fornecimento de luz era deficitário, uma verdadeira porcaria.

Caminhava desde a sala até a cozinha, num ir e vir contínuo, na tentativa de fazer dormir meu irmão.

Deixou uma lamparina, de luz fraca em uma peça intermediária, e tantas vezes foi e voltou, mas Joaquim Luís não conseguia dormir.

Ao chegar à cozinha, que era uma peça longa e estreita, cujo forro cobria apenas a metade da peça, mamãe ouviu um barulho nas telhas, exatamente onde não havia o forro, parou e observou no escuro o que poderia estar fazendo aquele barulho.

Para sua surpresa e susto viu uma telha sendo deslocada do lugar, pois enxergou o céu estrelado abrir-se a seus olhos.

Com o coração disparando, continuou a assoviar baixo e foi até seu quarto, ao lado da peça em que estava a lamparina. Ao ali chegar, deitou Joaquim Luís em sua cama, abriu a gaveta do criado-mudo, feito de tábuas simples pintados com tinta a óleo de cor rosa, mas ostentando um tampo em mármore rajado branco e rosa e desta retirou um Revólver Royal HB.38, fabricado nos States em 1922, niquelado, que meu pai ganhara em uma rifa no ano de 1936 logo que havia sentado praça no Exército.

Calma e silenciosamente abriu a janela de seu quarto que dava para um pátio interno e desta pode ver a vulto enegrecido pela noite, de cócoras sobre o telhado tirando mais uma telha.
Sem medo, pensou primeiramente em seus dois filhos Ieda de Lourdes de quase quatro anos que dormia tranquila no quarto da frente e do pequeno Joaquim Luís com apenas um mês de vida, e como não havia outra coisa a fazer, levantou o revólver de disparou uma única e certeira vez, derrubando de cima da casa o tal larápio.

Ouviu apenas o barulho de um corpo cair para o outro lado da casa, dentro de nosso pátio, ao lado do Corredor das Bochas, que era uma servidão de passagem que ligava a chácara do Sr. Ricardo Stein e Dona Susana Klomp Stein, à Rua em que morávamos.

Mamãe passou a noite em claro, cuidando dos filhos, mas sem deixar de carregar o revólver em sua destra para todo o lado que fosse.

Ao clarear o dia, ainda com pensamento de todos os tipos em sua cabeça, foi até uma janela lateral, abriu seu postigo e através do vidro deu uma olhada pelas cercanias e nada viu.

Com o revólver bem seguro, lentamente abriu a porta da cozinha e com o coração disparando olhou bem todos os cantos do pátio. Nada vendo saiu para rua, momento em que viu pingos de sangue que iam em direção ao portão que dava acesso a rua. Como o pátio era aberto, cercado apenas por fios de arame farpado, mamãe colocou estrategicamente o revólver sob o casaco para não ser visto por algum dos vizinhos, que certamente ouviram o estampido naquela noite ou algum passante e foi devagar até o portão olhando para o lado onde havia pingo de sangue e nenhum corpo viu pelas cercanias.

O tal larápio além do tombo de mais de três metros e meio, levava uma bala em algum lugar de seu corpo.

Em seguida varreu o pátio, tirando as marcas que haviam ficado.

No mesmo dia, mamãe mandou alguém chamar Vovô Garcia, que morava na época a mais ou menos a uns 120 metros de nossa casa, em uma rua lateral. Esse sempre envolvido com segurança, com a Policia Militar, Civil a Guarda Noturna, não se fez esperar, e próximo ao meio dia daquele mesmo dia foi ver mamãe, que a ele relatou o ocorrido.

Disse então Vovô Garcia que ela não se preocupasse, pois ele passaria na Santa Casa de Misericórdia para ver se alguém baleado havia dado entrada naquele hospital e também iria à Delegacia de Polícia ver se havia alguma ocorrência relativa ao caso.

Não houve nenhum registro de pessoa baleada naquela noite, o que tranquilizou mamãe.

Passado alguns poucos anos, fato contado por minha própria mãe, o Senhor de nome Papaleo, chefe da Guarda Noturna surpreendeu um meliante na mesma tentativa sobre a casa dos padres, uma casa em diagonal com a Catedral São Francisco de Paula.

Essa Catedral surgiu como uma Capela em 1813, por iniciativa do Padre Felício da Costa Pereira, porém somente tomou as configurações atuais em 1947/48, quando foram construídas a Cripta e a grandiosa Cúpula, com o desenho do arquiteto Roberto Offer em 1847 e somente então terminada pelo arquiteto Vitorino Zani e decorada riquissimamente pelo extraordinário e conhecido pintor Aldo Locatelli.

Papaleo atirou e o meliante mortalmente ferido se estatelou dentro de um tanque que ficava ao lado da referida casa. Acionada a polícia o corpo foi recolhido e para a surpresa de todos o larápio, cuja alcunha era “Cadelinha” tinha uma marca antiga de um tiro na lateral da coxa direita, cujo projétil calibre 38 ainda estava meio encravado no fêmur.

Seria o tal meliante que mamãe derrubou de cima de nossa casa?

Nunca saberemos.

Mas como dizem os irresponsáveis “não temos provas, mas temos convicção”.