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quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Pelotas - Sem Panos Quentes - 1




Tenho um grande respeito a muitos pelotenses, amigos e amigas do coração, mas não estou generalizando e sim comentando o que vejo, não dos pelotenses e sim dos pelobentos.

Pelotense é aquele que nasceu no município de Pelotas, como eu, no Estado do Rio Grande do Sul, por muitas décadas conhecidos pelos Riograndinos como “sebentos”.


Esse apelido surgiu, pois Pelotas por muitas décadas (Séc. XIX e XX) era um expoente na fabricação de sabões e velas feitos através do sebo das suas grandes charqueadas e uma ainda insipiente indústria aproveitava esse subproduto e mesmo com o declínio das salgas, Pelotas continuou produzindo esses sabões e velas, principalmente pela histórica e conhecida Indústria Lang, que foi inaugurada em 1864, pelos irmãos Carlos e Ernesto Lang (Karl e Ernest).


“Tá”! Eu sei que eles compraram a fábrica de Luís Eggers! E dai? Isto nada tem a ver com o que eu estou relatando.

Há obviamente entre os sebentos, os “sebosos”, que são aqueles que vivem do passado, sonhando com seu tataravô que foi alguma porcaria do Império ou algum que possuía uma conta no falido Banco Pelotense ou uma estanciazita, mas os sebosos ainda vivem desses idos tempos como se vivessem nesse fausto na atualidade e não veem sua decadência. 

      Casinhas em terreno de três metros, mostra bem a estreiteza de horizontes.

Decadência generalizada de uma classezinha média que se acha rica, que mesmo comendo pão com mortadela vive arrotando caviar. No natal comem frango assado de mercadinho, mas dizem que o peru estava ótimo.


Pssiu! Eu sei bem, pois sou pelotense e tenho parentes na cidade e alguns se acham classe média alta ou até ricos, mas não passam de pobres metidos a sebo ou metidos a sábios. Estou há 40 anos em Canoas, e cada vez que vou à Pelotas é uma decepção. Tão grande é essa decepção que estava de mala e cuia prontas para viajar para lá, porém ao pensar em ver o que vejo sempre que para lá vou, desisti.

Também fico enojado quando alguns desses sebosos ficam irritados quando eu relato que meu pai foi de uma infância miserável que se fez na vida pelos seus méritos sustentando parasitas até hoje, quase duas décadas de sua morte, sebentos que se acham ricos e me censuram quando eu escrevo sobre o nosso passado pobre e dizem com a maior cara estanhada:

- “Não me lembro”.

Ninguém se esquece de sua meninice, adolescência e juventude, a não ser que sofra de Alzheimer, seja totalmente incapaz das faculdades mentais ou muito mentiroso.

Coitados.

Desses eu tenho pena... 

Não! 

Tenho é outra coisa.


O mais interessante que tem muita gente que não nasceu na cidade, mas por lá foi criado, uns até meio guaches, adquiriram a empáfia dos Pelobentos.

           Janelinhas pequenas dimensionam o tamanho das mentes
                        de uma cidade triste e feia. Pensar e poder pequeno é triste.


Esta empáfia é tão grande e nojenta que certa feita conversando com o saudoso escritor e militante comunista Jorge Fischer que nos brindou com o hilário livro “O Riso dos Torturados”, já mencionado neste espaço, contou em uma roda de amigos na qual eu estava presente que uma velha e snobe pelotense, saudosista e fresca, dessas que ainda vivia nos tempos áureos de Pelotas, em uma festa de Pelotenses em Porto Alegre dizia e se vangloriava aos gritos e risadas histéricas, junto aos participantes que seu avô era muito rico, que seu avô isto, que seu avô aquilo, que seu avô patati patatá, e que fez muitas pessoas ricas em Pelotas, pois era um homem milionário que distribuía riquezas aos amigos.


De saco a tiracolo, com o gargoseio da velha Pelobenta, Jorge Fischer que era natural de Porto Alegre, já a meia-boca, pois havia entornado algumas, disse no meio do povo que ouvia a enfadonha “madame”:


- A Senhora sabe que meu avô, pelotense, também fez muita gente ficar rica em Pelotas?


A referida senhora parou o que estava falando, virou-se, olhando-o de cima e a ele perguntou (pergunta bem de Pelotense):


- A que família ele pertencia?


- Isto não importa senhora, mas ele fez muita gente ficar rica em Pelotas.


- Mas quem era ele – insistiu a Pelobenta.


Fischer do alto de sua sagacidade respondeu:


- Era um velho, de chapéu esgualepado, chinelos rasgados, unhas sujas, roupas imundas e remendadas que vendia Bilhetes de Loteria na porta do Mercado Público..


Gargalhadas e a Pelobenta fechou a matraca e sumiu.


Pois é gente, esta história continua na próxima publicação, pois há muitas coisas engasgadas que precisam ser vomitadas, pois Pelotas merece muito mais, porém a maioria de seu povo...


Faça-me o favor.

                 Cúmulo.

Uma cidade triste, pobre, feia, mal cuidada, que seu povo perdeu o elã e a elegância e o que vemos hoje, principalmente pela Andrade e Floriano é uma gente feia, mal vestida que contrasta diametralmente daquele povo dos anos 60/70. Infelizmente, mas muitos continuam topetudos se achando superiores aos que vivem ao seu redor.

Tratamento de choque: Fique dez anos fora de Pelotas, na Grande Porto Alegre ou na Serra, depois deste tempo volte à Pelotas, aí tu verás o quão horrível é esta cidade. E isto eu passei a perceber somente nas últimas viagens que para lá fiz.


ELUCIDÁRIO:
Esgualepado – roto, arruinado, acabado.
Gargosear - Contar proezas, gabar-se, vangloriar-se
Guache – Criado à la cria – sem pai ou mãe. Abandonado.
Mandinho – Menino, guri pequeno, piá.

sábado, 11 de novembro de 2017

Boa Nova.




        Na mão o símbolo da maldade que matou e escravizou povos inteiros.

E chegaram em 1492 os cristãos às Américas trazendo a Boa Nova.


A Boa Nova era a espada que decapitava, sangrava e feria.


A Boa Nova era roubar terras e ouro dos nativos.


A Boa Nova era impor uma religião mentirosa e perversa.


A boa Nova era destruir um mundo de harmonia entre os homens e a natureza.


A Boa Nova era matar recém-nascidos, anciãos, homens e mulheres.

A Boa Nova era levar o que podiam roubar para construir igrejas na Europa, cobertas de ouro, pedras preciosas e madeiras roubadas dos índios.


Essa era a Boa Nova, que em uma mão carregava um livro falso, mentirosos, que verte maldades e sangue de suas sujas páginas e na outro o arcabuz, dizimando, matando, castrando, mutilando homens e mulheres, num festival inenarrável de maldades.

                                      Os que se disseram filhos de deus, por maldade e ganância
                                      mataram com perversidade milhões de menininhas como 
                                      esta, seus pais, avós e irmãos.

Milhões foram barbaramente assassinados, escravizados por aqueles que diziam trazer a Boa Nova, que de tão velha e ultrapassada já deveria ter morrido, fétida e amaldiçoada.


Mas continuam alguns a falar em Boa Nova e esquecem ou não sabem que essa Boa Nova só trouxe ódio, guerras e mortes. Só trouxe ignorância, maldades, perversões e genocídios.


Boa Nova maldita, que em seu seio prolifera a pedofilia, a mentira, o enriquecimento voraz de alguns vivaldinos, a maldade ladina, a mentira velada e a chantagem obscura.  

Boa Nova que ilude os atormentados e os torna robôs, sem cérebros ou inteligência.


Boa Nova que quer e domina as mentes dos que ainda acreditam em bonequinho de barro e descartam todos os avanços científico dos últimos cem anos, mas se diz Nova após dois mil anos de maldades, superstições e desmandos.


Na verdade não passa de uma anciã velha e senil, cujo seu Alzheimer fez esquecer tantas atrocidades.



Hijos del Sol.

Glorificamos nosso honroso passado:

Quando a Terra era a mãe que nos alimentava, quando o céu noturno era nosso teto comum, quando o Sol e a Lua eram nossos pais, quando todos eram irmãos e irmãs, quando nossas grandes civilizações cresciam sob o Sol, quando nossos chefes e anciãos eram grandes líderes, quando a justiça ditava as regras da lei e sua execução.

Então, os outros povos chegaram:

Sedentos de sangue e ouro, sedentos de terra e de toda sua riqueza, carregando a cruz e a espada, uma em cada mão, sem saber ou esperar para aprender os caminhos dos nossos mundos consideraram-nos como sendo menos que animais, roubaram nossas terras e delas nos arrancaram e tonaram escravos os Filhos do Sol.

No entanto, nunca foram capazes de nos eliminar nem de apagar nossas memórias, aquilo que fomos, porque somos a cultura da Terra e do Céu.

Somos da antiga linhagem e somos milhões e embora todo nosso universo possa ter sido dizimado, nosso povo ainda está vivo e presente. E depois de séculos de opressão, evocando a grandeza de nossos ancestrais em memória de nossos mártires indígenas e em homenagem ao conselho de nossos sábios anciãos, estamos nos levantando para retomar o controle de nosso próprio destino e recuperar nossa completa identidade étnica e cultural, nossa completa dignidade humana e o orgulho de sermos povos indígenas.
                                                           Janan Pacha - Tierra Norte.



Preocupo-me ao ver que em pleno Século XXI, latifundiários canalhas, gananciosos e imediatistas na Amazônia mandando seus jagunços eliminarem fisicamente milhares de índios porque ainda querem roubar o que sobrou de suas terras e pretensiosamente se dizem filhos de deus.


Que deus?


Que deus é esse que em sua Boa Nova trouxe o extermínio de nações indígenas inteiras, trouxe doenças e maldades do extremo Sul ao extremo Norte do chamado Novo Mundo.

domingo, 22 de outubro de 2017

Lamento




Foi um namoro que durara pouco mais de um ano e já havia terminado há mais de cinco. Fora para ela um vendaval de paixões que marcara muito seu jovem e terno coração adolescente. Neste tempo muito sofrera e permanecera só, triste e cultivando uma impossível esperança que a consumia.

Tornara-se triste e amarga, sonhando com um reatamento que não tinha como acontecer, mas ela sonhava e sofria.

Numa tarde ensolarada de primavera, há pouco havia chegado do quartel do Exército no qual servia há quase seis anos, não encontrei meus pais, pois haviam saído para fazer algumas compras e a casa apresentava um silêncio melancólico como jamais ocorrera. A luz do Sol entrava pela janela e o movimentar sereno da leve cortina fez-me por um instante parar e contemplar aquele tranquilo canto da sala, enquanto tirava a gandola e a colocava na guarda de uma cadeira.

Antes mesmo de ir para o banho, parado em meio da sala, vestido apenas com a calça de campanha e coturnos, com o peito nu, ouvi barulho no portão social. Pequeno e leve portão de ferro pintado em cor azul claro. Parei por um instante ao lado da mesinha de centro como se auscultasse o próprio silêncio que após se fizera.

Em atenção permaneci e antes de tirar o cinturão com a pesada pistola da cintura para colocar sobre a cadeira onde havia deixado em sua guarda a suada camisa de campanha, conhecida como gandola, soou a campainha.

Imediatamente fui até a porta e quando a abri uma surpresa muito grande tomou conta de mim. Com alegria vi ali parada, linda e serena aquela, agora, doce mulher, que ainda não completara os 23 anos com um conjunto leve de saia e casaquinho cor-de-rosa clarinho, blusa branca, sapatinhos baixos, brancos.

Ostentava uma corrente de ouro em volta de seu fino e delicado pescoço, que pendia sobre o peito arfante.

Bonita e formosa, jovem maravilhosa, bem vestida e com seus negros cabelos ondulados e belos, porém carregava o mesmo semblante extremamente triste de quando a deixei anos antes.

Surpresa e encantamento, saudades dos bons e quentes momentos que passamos junto. Agora mais amizade e respeito do que qualquer outro sentimento.

Aos poucos ela foi levantando o pálido rosto e seus olhos negros brilharam como duas estrelas contemplando-me a sua frente. Não sorriu. Seu rosto tornou-se pesado e com uma profunda tristeza. Tive a impressão de que ela iria chorar. Titubeante e engasgando-se nas palavras quase não conseguia falar, mas seus olhos percorriam meu pleito e braços.

Meus pensamentos confusos deixaram-me sem ação, mas contendo-me em total respeito àquela mulher tão frágil e submissa. Tão terna e passiva a qualquer vontade, a qualquer loucura, porém nada podia fazer para não machucar mais aquele já estraçalhado coração, apenas sorri e perguntei como ela estava.

Sem dizer nenhuma palavra, de olhos baixos, limitou-se a entregar, com as mãos trêmulas um envelope e com esforço e ternura, uma ternura quase suplicante disse que era para os meus pais, mas que eu podia abrir e ver.

Olhando-me fixamente permaneceu enquanto eu abria o envelope e dele tirava um belo convite. Era o convite de seu casamento.

Meu coração foi tomado de uma grande alegria. Agora me sentia livre daquelas nostálgicas amarras que insistiam em prendê-la a mim. Um sentimento inexplicável de culpa parecia ter se apagado de meus pensamentos.


Mas que culpa teria eu?

Que dor e sofrimento teria causado àquela bela mulher?

Uma coisa insana que há muito me atormentava via naquele momento esvair-se. Ela finalmente havia encontrado alguém que a amasse verdadeiramente e a fizesse feliz. Era o que eu esperava realmente.

Com os olhos baixos despediu-se sem nada dizer, dando-me a mão trêmula, hesitante e confusa.

Por um bom tempo permaneceu segura a minha, parecia não conseguir ou não querer soltá-la. Titubeante levantou os olhos e aos meus fitaram com afeto e ternura, coisa difícil de descrever. Seus olhos negros brilhavam profundos e tristes, sua mão macia e delicada apertava a minha como num pedido de misericórdia e por um bom tempo permaneceu fitando-me com um carinho intenso, devastador e extremamente submisso. Pendeu levemente a cabeça quase encostando a meu tórax. Ela nada disse apenas me contemplava e eu calado permaneci, pois nada que dissesse aliviaria o seu coração.

Após aquele devastador momento para ela, virou-se devagar como se não quisesse ir, como se suplicasse que eu não a largasse. Doído momento. Virou-se e caminhou lenta e incerta para o portão enquanto eu com dó admirava seu corpo esguio, mas cheio de provocantes sinuosidades, belo e atraente.

Ao chegar ao portão, parou e continuou por um tempo de costas, pensativa, olhando para cima onde um belo céu anil descortinava-se límpido e infinito, rogando, pedindo e implorando para que eu a chamasse para os meus braços.

Um duro momento que carrego claro em minhas lembranças, quando vagarosamente virou-se, fitou-me de longe e suavemente, como se planasse em seu caminhar delicado voltou tão incerta e titubeante quanto havia saído.

Parou de mim tão próximo que podia sentir o seu cheiro tão conhecido, embriagante e sedutor. Podia sentir o seu hálito doce e perfumado. Seus belos olhos tristes levantaram-se e aos meus penetraram tão profundamente quanto era o seu amor e com uma submissão como jamais havia visto. Imensamente submissa, escrava de uma até patológica paixão. Paixão tão doentia que a tornava refém de qualquer desejo. Refém de qualquer querer. Refém de qualquer capricho.

Seus lábios tremiam. Seu rosto já pálido transfigurou-se e quase imperceptivelmente balbuciou algumas palavras que vinham do fundo de seu sofrido e jovem coração, fazendo imenso sacrifício para não chorar.


Trêmula virou-se mansamente, como se não quisesse ir e sumiu vagarosa rua a fora sem olhar para trás, carregando uma ampla tristeza, uma tristeza tão grande, sufocante e contagiante que eu tive vontade de correr em sua direção e beijá-la, envolvê-la com carinho em meus braços e pedir-lhe perdão por aquele tão grande e louco amor não correspondido.

Mas para quê?

Para fazê-la sofrer mais ainda?

Meu coração voltou às antigas amarras de culpa, dó e dor.

De meus pensamentos o que ela, num momento tão sofrido havia dito, mesmo que com palavras tão difíceis de serem ditas, sufocadas, amordaçadas, balbuciadas, quase inaudíveis, mas com tanto amor e carinho, com tanta paixão e tristeza, com tantas súplicas e submissão que jamais se apagaram e jamais se apagarão de minha memória enquanto eu viver ou eternamente.


- Estarei te esperando, suplicando, chorando e implorando que vás me buscar e mesmo que no altar esteja, largarei tudo para te acompanhar.


Lamento.


Lamento profundamente.

Lamento que um dia tenhas me amado tanto.

Lamento que eu não tenha correspondido a tanto, transbordante, magnífico e louco amor.

E o tempo passou, a dor ficou como garras em meu peito cravadas, mas infelizmente não havia o que fazer.

Perdoe-me.

Infelizmente não somos os únicos donos de nossos destinos.