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sábado, 26 de outubro de 2013

SER PELOTENSE




Conhecer superficialmente um Pelotense é fácil, basta perguntar:
 - De onde és?
Ou como ainda acontece, inquirir o vivente olhando de cima:
- A que família pertences?

Porém ser Pelotense requer alguns atributos únicos.

Ser Pelotense é ter um dia andado nos Autos Bons da Ligth, nos ônibus da STUR, ou ter utilizado os carros de praça, principalmente do dez-dez, da Praça dos Enforcados, onde o Jari, centro avante do Esporte  Clube Pelotas, era um dos motorista de aluguel.

Ser Pelotense é ter usado calça ou pulôver com rim-rim, e desfilado com uma linda gravata comprada nas Casas Paris-Londres para poder entrar no cinema, mesmo que fosse lá no Cine Esmeralda, no Areal, usado polainas e chapéu da Fábrica de “Chapeos” Pelotense, onde meu pai antes de ser militar trabalhou alguns meses, e vestido um traje de casimira inglesa ou tecidos da Cia de Fiação e Tecidos Pelotense.

Ser Pelotense não é só ter comprado na Velocino Torres, e sim ter conhecido o Sr. Florindo Miranda, proprietário, o Sr. Antônio Magalhães, o gerente e os Srs. Manoel Valente e Osvaldo, ambos  funcionário administrativos, lembrando que o Sr. Manoel acabou associado da loja.

Ser Pelotense é ter um dia feito um lanche no Ao Barquinho, e bem mais modernamente na Taperinha ou ido para o Gato Preto, usando, se fosse menina um vestido de petit-pois e um corpinho comprado na Casa das Sedas e se fosse um rapaz uma calça de Brim Coringa e uma camisa Volta ao Mundo e sapatos da Casa Hercílio.

Ser Pelotense além de comer docinhos do Beróla é comer “quéque” em plena praça central.

Ser Pelotense é ter marcado um encontro na esquina da Bule Monstro ou ter frequentado o “A Vienense”, onde se era atendido pelo próprio proprietário chamado Pedro. O gentil e sério Seu Pedro, a única pessoa que vi tomando a sopa logo após de ter fartamente jantado.

Ser Pelotense é ter comprado medicamentos na Pharmácia Coelho da Costa, tomado Kautzeína, produzidas pela Farmácia Kautz para a dor de cabeça, ou para se refrescar bebido uma gasosa da Telma, ou mesmo ter uma vez na vida entrado na Casa Rosa, na esquina do Canalete com a Andrade.

E é inegável que para ser Pelotense deveria ter usado um cabungo, utilizado um mosqueiro, bebido água da quartinha, escutado em uma galena sintonizada na PRC-3, o Paulo Corrêa comentando um jogo do Bancário, ou mesmo seu concorrente Luís Carlos Martins da PRH-4.

Ser Pelotense é ter passeado pela Pracinha do Porto e admirado o Gasômetro, passeado pela calçada do Anglo e visitado o Club de Regatas junto ao movimentado porto, ou ter participado de um convescote com os colegas do ginásio na Cascata ou na Z-3.




Ser realmente um Pelotense é ter assistido na Vila do Prado os ingleses, em suas roupas brancas jogando Golf, passado antes no Bar Tabajara, na Daltro Filho para comprar roupa-velha ou bolinho saúde e depois passeado pelo fleumático Parque José Alvares de Souza Soares vendo os ricos passear em suas Cabriolets, Faytons ou Traquitanas, ou uns mais privilegiados passeando em seus Ford’s de Bigode.




Ser Pelotense mais, do que qualquer outro é ter saboreado uma Cerveja Haertel, ou Mário Sacco, e para esnobar os mais novos ter bebido Cerveja Porco ou Peru, também da Haertel, saída diretamente do engradado de madeira e para refrescar pedido ao garçom um pedra de gelo que era posta direta no copo.




Ser Pelotense é ter comprado long-play no Bazar Edson e ter sido atendido pelo gordo e simpático Sr. Armando, e bilhetes de loterias no Índio da Sorte, usado para acabar com a caspa o escuro sabão Sarnartil da Leivas Leite, ou entrado, ainda na madrugada na Bicha da Sudeste, ali na Tiradentes para comprar carne.

Ser Pelotense e ter sido fotografado pelo menos uma vez na vida pelo tradicional retratista que ficava ali na Andrade Neves retratando quem passasse, sendo que meu pai e minha mãe foram ao longo de muitos anos retratados diversas vezes.


                                        Grande Mozart Passos, quanta saudade.

Ou, para ser Pelotense, ter procurado o Foto Passos, para ter fotos 3X4, aniversários, casamentos e batizados, cujo seu proprietário o saudoso e divertido Mozart Passos mantinha seu atelier na Argolo entre a 15 e a Andrade.



                             O grande e humanitário Médico Francisco Ribeiro da Silva.
                                                            Doutor Chico Louco.

Ser Pelotense é ter pelo menos uma vez na vida sido atendido pelo Doutor Chico Louco ou pelo Doutor Ferrerinha, aberto a boca para o Hélio Guerra que era dentista, ou comprado um livro na Livraria Echenique, ou ter visto o Dirigivel Zeppelin ou as carruagens da Casa de Pompas Fúnebres Constantino Ribeiro e Filhos.

E para alegrar, ser Pelotense é ter um dia brincado nas Festas Burlescas, saindo no Jacaré do Fragata, na Girafa da Cerquinha, no Espia Só, no Fica Aí, e se fosse “reculuta” no Aguenta se Puder.

Ser Pelotense é ter recebido em casa uma bela Frigidaire comprada nas Casas Bromberg e entregue em um carroção puxado por belos percherons ou conhecido alguém que teve uma conta no Banco Pelotense.

Ser Pelotense é ter utilizado para iluminar as noites escuras as Velas Lang ou lampiões a querosene Jacaré comprado no Posto de Gasolina do Bubi e participado de Jogos de Snooker no Club Dragagem cujo zelador era o Baixinho e no verão ter tomado uma doce raspadinha na “cidade” ou um belo picolé feito pelo Oliveira dono do Bar Flor de Maio, ou passado no Armazém de Secos e Molhados do  Sr. José Pederzolli Sobrinho e de Dona Celda, pais da Zuleika, para comprar sorvete quente, Embaré, e bulitas para, com os mandinhos da rua jogar gaia.

Ser Pelotense e ter usado os serviços da Companhia de Melhoramentos Telefônicos Retomados, ter sido vacinado pelo Seu Osório do Centro de Saúde, ter conhecido o negro Rapadura e o gordo negrão Feijão Azedo, puxando sua carriola, ou comprado laranja por cento do Roda Baixa.

Ser Pelotense e ter conhecido, mesmo que de longe, muito longe o Zé Amaro, o feio Judite, o gordo Milóca ou o  fera Alfredinho, que acabou sendo assassinado, espetado por um estilete de abrir envelopes.

Ser Pelotense é ter participado da UPES, estudado no Sales Goulart ou Dom João Braga e ter sido aluno do Professor Carpena, do Zé Olavo, da Heloisa e do Salada no Gonzaga e ter lido o “Opinião Pública”.

Ser Pelotense é viver o momento sem esquecer o passado, passado rico e pomposo, que com o tempo, para muitos, caiu no esquecimento, mas os teimosos gostam de mantê-lo aceso. Aceso como o incêndio do Mercado, aonde, para acabar com os saques que estavam ocorrendo e a polícia não dava conta, o Coronel Antônio da Fonseca Sobrinho, comandante do 9º RI, mandou uma companhia do Exército que estava em prontidão e armada até os dentes, acabar com a balburdia, o que foi feito num instante, pois bastou a milicada descer dos caminhões que o povaréu desapareceu das ruas, permitindo assim aos valorosos bombeiros trabalharem em seu árduo ofício sem problemas.

Enfim, ser Pelotense é ser esnobe, chique e fleumático, mesmo sendo um pé-rapado.

E nem te ligo”.

Pior. Ser Pelotense é ter a petulância, a ousadia, e a extrema coragem como eu tive de jogar xadrez com o “Mequinho”, o mestre dos mestres.

Bah meu! Não deu nem pra saída.

Foi vergonhoso.

E depois desta...
 

FUI. (vermelho de vergonha, mas ousado e petulante).

4 comentários:

  1. Muito bom texto. Lembro de pouca coisa, mais a pouca já dá um saudade danada. Tua receita de arroz com pêssego me fez lembrar até do cheirinho quando minha mãe fazia. Hoje morando em Brasília só me resta arroz com pequi rsrsrs...que não chega nem sós pés da culinária gaúcha. Adorei teu blog. Parabéns!

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  2. Olá Lygiah, que imenso prazer tê-la visitando meu blogue.
    Fico mui contente quando deixam um comentário, par isto tenho este blogue, para que seja lido, elogiado ou criticado, mas o importante e ter participado.
    Quanto ao arroz com pêssego é realmente uma delícia, e de quando em vez me atrevo a fazer, mas não chega nem perto do arroz que mamãe fazia.
    Com respeito e carinho, um grande abraço.

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  3. sou até que meio novinho pelo tudo que contas aí, mas algumas coisas conheci!

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  4. Caríssimo José Inácio.
    Sempre um privilégio tê-lo em meu blogue.
    Indico para tua leitura a matéria com o título "Cabungueiros e Seus Cabungos", vais viajar no tempo, já foi até assunto de trabalhado em uma faculdade.
    Faço muitas viagens no tempo, tentando resgatar a história, para que a mesma não se perca, como por exemplo o "Crime da Ponte e O Homem Errado I e II"
    Um grande e fraterno abraço.
    Continue comentando, pois é isto que me dá ânimo de escrever.

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