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quinta-feira, 7 de maio de 2015

Maria Emília



Mais uma vez passo a contar um pedacinho da história de minha família. Outro caso envolvendo minha bisavó Maria Emília Pereira de Farias, mãe de minha avó paterna, a vovó Bibira. 

                      Tia Maria Rafaela

Já contei o caso do Mascate árabe que ela friamente mandara para a terra-dos-pés-juntos no início de Século passado, em matéria publicado em 05 de julho do anos passado.

Sabia da história em partes, porém há uns quatro anos atrás tia Maria Rafaela falecida no dia 22 de janeiro do ano passado, aos 98 anos de idade, me relatou tal fato em seus pormenores, após ter a ela pedido que me contasse o caso das crianças que Vovó Nanãe, Maria Emília queria sangrar feito porcos para se vingar de um desafeto que era o pai dessas crianças.

Pobrezinha de Tia Maria, concordou em me contar a história mas pediu encarecidamente que eu não contasse a ninguém, pois a Polícia, se soubesse poderia investigar o caso. Rindo disse à Titia que a polícia não investiga milhares de casos que ocorrem todos os dias porque vai querer investigar um caso ocorrido a mais de cem anos?

Tal história relato em meu livro de memórias ainda sem título, que anda mais encruado do que unha encravada.

Mas um dia sai.



"Maria Emília era uma mulher de traços tipicamente nativa das terras pré-colombianas, uma índia despachada e de má índole, cruel e desapiedada.
            Muitas histórias ouvi, ainda quando criança, sobre minha bisavó, contadas entre minha avó Idelvira, minha tia Maria Rafaela e minha mãe, cochichando baixo para não serem ouvidas, mas eu, muitas vezes brincando por perto ouvia em silêncio, guardando tudo na memória, inclusive histórias de desafetos que Maria Emília, fria e pessoalmente despachara para a terra-dos-pés-juntos, sem precisar para tal usar capangas para a empreitada.
            Certa vez, por ter em Juvêncio Pereira um desafeto de morte, por sinal de mesmo sobrenome, que era um rude homem encrenqueiro, e vivia em desavenças, ora com um, ora com outro, Maria Emília decidiu vingar-se de tal inimigo.
Certo início de tarde conseguiu arrastar os quatro filhos de Juvêncio, todos pequenos para dentro de um mato e depois de amarrá-los a uma árvore, resolveu degolá-los. Para tal foi até sua casa que ficava a mais de légua de queixo de distância, pegar sua carneadeira. Excelente faca com que ela carneava porcos e outros animais, para também sangrar as indefesas crianças, o que demorou mais de uma hora, fazendo voltas para despistar alguém que a tivesse visto com o piazedo. 
            Ao chegar a sua casa encontrou a mulher de Juvêncio, desesperada, aos prantos e de joelhos ao solo, implorando que não matasse as crianças, pois sabia que seus filhos só poderiam estar em algum lugar escondidos por ela. E foram tantos os choros e gemidos sentidos que Maria Emília compadeceu-se de tal mulher, coisa difícil de acontecer e mandou que essa esperasse em casa e que teria os filhos de volta.
            Voltou logo após para os matos onde havia deixado às crianças, agora armada de sua carneadeira e ao chegar, já ao entardecer, encontrou as quatro crianças desesperadas, já sem forças para chorar e apavoradas.
            Após desamarrar os pequenos, Maria Emília disse que não iria matá-los, pois se compadecera de sua mãe, tão desesperada, mas que haveria de acertar as contas com o seu pai, o próprio Juvêncio.
E avisou:
            - Digam a seu pai, que amanhã eu vou à procura dele para matá-lo.

            
As crianças desesperadas e perdidas correram pelo mato, dando com os costados em um típico rancho do Brasil atrasado que era. Rancho de leivas de terra, coberto de sapé. Esse rancho em meio a um pajonal, bambus e unhas-de-gato, árvore conhecida hoje como maricá, pertencia a uma bugra de nome Nica Santeira, que além de parteira era uma curandeira das buenachas, de excepcionais chás “miraculosos”.
Dois guaipécas magros e galgos de fome latiram no terreiro ao lado esquerdo do rancho, terreiro cercado de árvores finas e tortas e muita taquareira ao redor.
Ao ouvir os cachorros a velha índia santeira, charrua que andava sempre descalça, após saber do que se tratava, acolheu as crianças, alimentando-as com leite e pão e após levou-os, estrada a fora até encontrar a desesperada mãe que os aguardava em sua casa aos prantos, já caída à noite.

            A tal índia Nica Santeira era assim chamada porque esculpia alguns santos em barro, que utilizava em suas rezas e xamanismos, onde o povo rude, ignorante e doente acorria a seu rancho na única esperança que tinha para curar seus males, e em meio a velas e infusões preparadas pela charrua e ficava esperançoso em recuperar a saúde desde o nascimento comprometida pela extrema fome e miséria em que viviam.
            Maria Emília realmente era uma mulher fria e sem remorsos, mas havia cumprido o prometido à desesperada mãe, pois acima de tudo era uma mulher de palavra, e sendo assim no outro dia mataria o tal Juvêncio Pereira, pois o havia jurado de morte às crianças. E isso ela sendo Farias, faria.


            Sabendo disso Juvêncio Pereira, não se fez esperar, e naquela mesma noite montou em seu flete, com sua mala de garupa e se tapou de bicho, não deixando rastro e nunca mais foi visto pelas redondezas e nem pelas "quadradezas", dias depois a infeliz mulher e os quatro filhos, pegaram um trem na Estação Cerrito, carregados de sacos e malas e sumiram também neste mundéu".

Minha bisavó haveria sempre de se lamentar de não ter sangrado o tal Juvêncio Pereira, coisa que vivia falando para as filhas e parentes mais chegados.

Oigalê porqueira. Mas bota ruindade nisto. Meu pai é que diria, pois vivia apanhando da avó maleva e ladina.
           



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