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segunda-feira, 4 de maio de 2015

Capitão X Cabo – E Agora?


Em minhas constantes idas para o laranjal, famosíssima praia de águas doces de Pelotas, a Capital Nacional dos Doces, em doces tardes embaladas pela brisa, onde o Sol não decepcionava encontrei uma doce menina, muito bonita, simpática e cativante.


Menina de seus 26 ou 27 anos, portanto alguns aninhos mais velha do que eu, e com ela fui conversar e esta conversa evoluiu para um namorico, que no segundo encontro partimos para os “finalmentes”.

Uma quente e louca relação.

Ah, se as areias daquela praia falassem!

Foram encontros apimentados onde os hormônios pululavam em ambos os lados, sendo que o primeiro foi nas areias entre a Praia de Santo Antônio e o Barro Duro, na época um lugar deserto onde poucos caminhavam por aqueles recantos.

Após duas semanas de encontros, em um domingo passeávamos tranquilos pela Avenida junto à praia, quando não havia calçamento, fim dos anos 60, com os poucos automóveis embicados entre as também poucas palmeira que ali existiam, eu vestia um calção vermelho e ela um biquíni azul marinho e branco.

Corpos bonitos, jovens e atraentes.

Muitas famílias sentadas em frente a seus automóveis, raríssimo automóveis, na areia observavam o movimento intenso de jovens e crianças correndo pelas areias da praia, outros tomando banho de sol, muitos grupos de amigos esparramados pela praia, rindo, conversando ou namorando.

Íamos, abraçados, dois jovens enamorados, despreocupados e satisfeitos com nossos furtivos encontros.

Nesse momento vimos um homem que estava junto a sua família, esposa e filhas ainda meninas, levantar-se e com o cenho fechado dirigir-se para a avenida encostando-se a um carro, de braços cruzados e com cara assustadora nos encarar.

Era um Capitão que servia no antigo 9º RI, onde eu também servia como um simples Cabo burocrata.

Ao passar pelo capitão, como não estava de uniforme, apenas o saudei com um movimento sutil com a cabeça, mas ele se quer respondeu, ficou encarando a menina que a mim vinha abraçada, e esta abaixou a cabeça, vermelha como um pimentão maduro.

Andamos alguns metros até sair do campo de visão daquele Capitão momento em que desconfiado tanto com a atitude do Oficial que me conhecia e muito bem do quartel, quanto da menina e a inquiri sobre a atitude dos dois, momento em que ela abriu o tarro e me contou que era sustentada por ele, o qual não só arcava com as despesas pessoais como a mantinha estudando em uma faculdade, e completou dizendo “ele vai me matar”.

Entendi o matar, não em matar mesmo, mas brigar e até agredir. Nada mais.


E agora?

Tudo já havia acontecido e eu tinha agora que enfrentar a fera.

Aquele domingo passou mais rápido que os outros, e na segunda-feira estava eu dentro do quartel, porém naquela manhã não vi o referido capitão.

Ao meio-dia, saí do quartel e fui almoçar com três Cabos em um restaurante perto do Regimento. Os Cabos, Acosta, Cardoso e Renato, nada falei, nada comentei.

De volta ao quarte, após ter passado na 4ª Cia de Fuzileiros onde fiz minha higiene bucal, subi ao Pavilhão de Comando me dirigindo a 1ª Seção, onde trabalhava, no primeiro andar, cujo piso do corredor era de tábuas, e passaria bem a frente da Secretaria do Regimento onde trabalhava o referido Capitão.

Dito e feito.

Ao passar diante da porta da Secretaria, ouvi aquele grito ensurdecedor, chamando pelo meu nome de Guerra.


- Teixeira!!!!!
Parei instantaneamente e voltei até à Secretaria.

Nesta estava o Segundo Sargento Garrido quase em frente a porta em sua mesa, e a esquerda do mesmo lado da porta o Terceiro Sargento Figueira, ao fundo a esquerda a mesa da fera, digo do Capitão, sentado a sua mesa, repleta de papeis e em sua frente e fechado estava o RDE, Regulamento Disciplinar do Exército.

Adentrei a sala, quando observei o Sargento Garrido interrogativo, meio sem entender o por quê o Capitão tão rispidamente e vermelho de raiva havia me chamado tão duramente, fui até a frente de sua mesa, perfilando-me garbosamente, teso como tronqueira, bati continência apresentando-me:

- Pronto, meu Capitão. Cabo Teixeira do S1, as sua disposição!

Com o canto do olho observei o Sargento Figueira atônito, sem entender também a maneira intempestiva do Capitão ao chamar um Cabo profissional daquela maneira, ainda mais tratando-se de um militar que tinha franco acesso em todas os setores, mesmo junto ao Comando como, e principalmente ao Sub Comando com quem trabalhava diretamente.

Nesse momento o Capitão, bravo e quase babando de ódio disse:

- Teixeira! Tu sabes que eu posso te botar na cadeia?

- Sim Senhor Capitão.  Eu sei! Respondi.

E apontando com o dedo indicador esquerdo para o Regulamento que estava a sua frente concluí.

- Mas sei também que o Senhor, o Comandante deste Regimento, o Ministro do Exército, nem tampouco o Presidente da República poderão fazer isto se não estiver enquadrado neste livrinho.

Ele ficou mais vermelho e embasbacado. Nada podia fazer, pois se viesse a púbico sua família de certo saberia. Não ia correr o risco. E em nada podia se agarrar, pois eu gozava de altíssimo conceito junto ao Comando e demais Oficiais daquela Unidade do Exército.

Novamente bati-lhe continência dizendo:

- Permissão para me retirar Capitão!

E não esperei sua resposta, fiz meia-volta, rompi passo de marcha com a perna esquerda como se fazia naquela época e fui para a 1ª Seção, para o expediente daquela tarde tensa.


Não havia chegado a minha mesa, após saudar os militares que comigo ali trabalhavam, ouvi passos fortes, batendo os tacos dos coturnos no assoalho do corredor, era o capitão que enfurecido saíra para tomar um ar, descendo as escadas e sumindo no pário do Quartel.

Nisto chegou à porta da 1ª Seção o Terceiro Sargento Figueira, que me chamou e quis saber o por quê daquela atitude intempestiva do Capitão.

Se o Capitão não tivesse feito àquela cena, tudo ficasse esquecido, mas aquilo foi o bastante para que eu contasse a boca pequena ao Sargento Figueira o que havia acontecido, afinal não deixaria minha conduta como militar ficar em suspenso.

OBS: O Terceiro Sargento a que me refiro neste post é o mesmo do “A BANANA DE OURO”, publicado em 23 de janeiro deste ano.  


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