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domingo, 24 de novembro de 2013

Amigos, Além de Camaradas.






No ano de 1970, ainda trabalhava na Casa da Ordem (S1), onde desempenhava a função de datilógrafo do Boletim Interno do na época Regimento, há quase cinco anos. Era um simples Cabo burocrata, porém cumpridor de minhas obrigações, disciplinado e conhecedor de minhas tarefas, e também o mais veloz datilógrafo do Regimento, posição que dividia com meu primo em segundo grau o na época Terceiro Sargento Milton Sedrez da Rosa.


                     Meu pai quando servia nesse mesmo Regimento

O Brigada do Regimento, ou Sargento Ajudante era um Primeiro Sargento, o mais antigo da tropa, que não estava desempenhando a função de subtenente, que servira como Soldado, Cabo e depois Terceiro Sargento com meu pai e por esse ter dado dele parte no livro de ocorrências havia sido punido uma vez, motivo pelo qual, anos depois sabendo ser eu filho daquele militar que havia não só o punido mas também dado diversas advertências enérgicas devido ao seu descompromisso com o serviço, nutria por mim uma grande antipatia, o que o levava seguidamente a tentar impor-se pela posição hierárquica e tentar sem sucesso, até então, intimidar-me. 


A ele não dava pelota.


Certa tarde soube que o referido Primeiro Sargento havia me acusado injustamente pelo vazamento de informações internas da Seção, o que me deixou injuriado, pois sabia que tais informações haviam saído da Seção por conta de um Terceiro Sargento de outro Setor que havia ouvido a conversa entre o Capitão S/1, o Sargento Ajudante e eu.


No final do expediente após o Capitão S/1 ter saído, juntamente com dois Sargentos e dois Cabos, além dos Soldados ordenanças, na Casa da Ordem permaneceu o referido Primeiro Sargento, além de um Segundo Sargento e um Cabo, parceiros de longa data, cujos nomes omito, pois não fui autorizado a citá-los.



                                 Meu último ano de Exército

Nesse momento disse ao Primeiro Sargento Ajudante (Brigada) que com ele queria falar.


Prontamente o referido Sargento aprumou-se em sua cadeira, colocando a cobertura enquanto eu dirigia-me até a porta e esta a fechei com a chave. Era um grande salão onde vários militares trabalhavam, comparado à iniciativa privada ao Departamento de Pessoal.


O Segundo Sargento e o Cabo que permaneciam no local, pararam o que estavam fazendo, pois sabiam que algo de muito grave poderia acontecer e para tal prepararam-se para intervir caso fosse necessário.


Dirigi-me então até a frente da mesa do Primeiro Sargento, a essa sentado e comecei a dizer-lhe muitas verdades, inclusive sobre o seu deplorável comportamento da época em que era Soldado, Cabo e Terceiro Sargento.


O mesmo furioso levantou-se vermelho como um pimentão.


E a situação agravava-se com os dois quase esbravejando e muitas verdades e inverdades sendo ditas, focado como um predador, furioso como uma fera sabia que se as coisas se se agravassem algo de muito ruim poderia acontecer. Dois homens discutindo seriamente sendo que os dois estavam armados, com sues revolveres carregados até a boca.


Ao, pessoalmente acusar-me injustamente pelo vazamento de tal informação, num movimento brusco puxei sua mesa para o lado deixando um espaço amplo aberto entre ele e eu, o mesmo assustando-se com minha intempestiva atitude deu um passo para trás batendo-se na cadeira, desequilibrando e encostando-se a um armário logo atrás.



Avancei dois passos em sua direção, furioso, pronto para defender-me de qualquer atitude daquele outro militar.


O segundo Sargento e o Cabo fizeram menção de aproximarem-se, chegando a levantar de suas cadeiras, pois acreditavam que com o tal Sargento  eu pudesse entrar em atrito corporal.


Estancaram e ficaram observando, sérios, atônitos, preocupados. 

Obviamente eu jamais o agrediria fisicamente a não ser para defender-me, e não o faria com as mãos livres. Estava furioso e como sou pavio curto, aliás, sem pavio não sei o que poderia acontecer diante de uma agressão.


Com o dedo em riste quase tocando ao rosto de tal Primeiro Sargento, muitas verdades com raiva e até ódio disse.


O mesmo limitou-se a dizer que de mim daria parte ao comando.

- Faça isto – Disse – Mas não esqueças que eu também posso dizer ao Coronel Comandante e ao próprio Subcomandante o que o senhor deles fala, critica e graceja. Inclusive posso dizer-lhes dos apelidos que o senhor costuma colocar neles, inclusive no Coronel S/4, assim como em outros Oficiais.

O Primeiro Sargento engoliu as palavras olhando-me pasmo e eu concluí:

- Tudo o que eu disser de “TI” terei testemunhas.

Nesse momento tanto o Segundo Sargento quanto o Cabo cruzando os braços olharam sério e quase ameaçadoramente para o Primeiro Sargento. (Nada havia sido combinado).

- EntretantoConcluí – “TU” não terás ninguém como testemunha.

Os dois militares que assistiam a contenda, com os braços cruzados viraram-se de costas, como se dissessem ao Primeiro Sargento que com eles não poderia contar. (Também nada havia sido combinado).


Virei-lhe as costas, sem bater-lhe continência e saí daquela sala furioso e pensando até em levar uns dias de cadeia.



Nada aconteceu, o primeiro sargento estava de mão atadas.

Ao Segundo Sargento e ao Cabo que ali estavam minha eterna gratidão pela amizade que estava acima da camaradagem, expressa num dos momentos mais tensos de minha vida como militar. Aos dois serei sempre grato pela atitude que tomaram, pois conheciam bem a mim e ao Sargento em questão. Isto foi uma das maiores demonstrações de amizade e acima de tudo de justiça que os dois, num momento tenso, sem nenhum acerto anterior externaram diante de um ato tão repulsivo. E é bom lembrar que tal Primeiro Sargento era um homem antipatizado por todos dentro daquela Seção e pela maioria dos militares que serviam naquele Regimento.


Na manhã seguinte bem cedo cheguei a Primeira Seção, estava só quando o outro Segundo Sargento que ali trabalhava chegou e já sabendo do ocorrido quis saber detalhes do ocorrido.


No momento em que conversávamos, sentados sobre dois balcões junto a porta que estava fechada, ouvimos o barulho de chaves para abri-la.

Paramos nossa conversa e a ela entrou o tal Primeiro Sargento Ajudante, de óculos-de-sol, olhos inchados, momento em que o Segundo Sargento levantou-se saudando militarmente com a famosa continência, dizendo:

- Bom dia meu Honorífico.


O Primeiro Sargento deu-lhe a mão, cumprimentando-o.



Levantei-me e perfilado bati-lhe também continência, mais firme do que tronqueira de brete, cara fechada, momento em que respondendo também a saudação militar o Primeiro Sargento esticou-me a mão para cumprimentar-me.


Hesitei e perguntei se era uma ordem.


Afirmativamente ele respondeu.


Aí então lhe apertei a sua mão.


Sabia que aquilo era falso e o tempo confirmaria.


Os dois militares que demonstraram tanta camaradagem hoje, o Cabo que optou pela vida civil está aposentado e continua trabalhando em Pelotas, vez em quando vou visitá-lo para conversarmos e comer belos churrascos, o que fizemos a menos de três meses, pois jamais perdi o contato com ele, já o Segundo Sargento, aposentou-se do Exército como Segundo Tenente, e está hoje recolhido a uma clínica geriátrica na Serra Gaúcha, com sérios problemas de saúde, não tanto pela idade, mas entre outras coisas mal de Parkinson e Alzheimer. Estou planejando ir visitá-lo.


O Primeiro Sargento com quem tive esse desentendimento aposentou-se do Exército e espero que esteja bem de saúde e tenha muitos anos de vida, pois jamais pensaria o contrário, pois o tempo deve ter mostrado a ele o quão estava errado a meu respeito.

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