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terça-feira, 30 de junho de 2015

O Café.


Quando trabalhava na Primeira Seção do então 9º Regimento de Infantaria, em Pelotas, muitas histórias fui coletando, afinal de contas nesta seção trabalhei por cinco anos e nada passava batido.

Houve uma época que foi chefiar essa Seção um Capitão buenacho barbaridade, um taita de primeira, tanto que ascendeu ao posto de General num vu.

Era um homem educado, sério, enérgico quando precisava e amigo dos subordinados, e todos, Sargentos e Cabos daquela Seção o admiravam muito. Um homem que se dissesse a seus subordinados que iria para o inferno, todos o seguiriam sem titubear.

E por seus subordinados comprava a camorra e não queria saber, fosse com quem fosse e sempre dizia:

- Aqui dentro nos podemos ter nossas diferenças, mas da porta para fora se tiver que brigar, vamos brigar, mas vamos brigar juntos.

E todos ali, na pausa para o cafezinho ficavam juntos ao capitão proseando sobre o serviço e também sobre outros causos.

O Rancho do Quartel não oferecia café ou quando o fazia não era muito apreciado. Para suprir essa necessidade tão importante da vida do povo brasileiro, resolvemos dentro da Seção comprar o nosso próprio café, que era feito ou no Bar do alemão Udo, que ficava em frente ao quartel, ou em um bar do Salton que lindava com o muro do Regimento, no seu lado direito.

Esse Capitão era um Oficial tão especial que entrou no entrevero do café. E mais pagava do que bebia, mas se divertia com as constantes discussões de “quem vai pagar”.

Obvio está que essas discussões eram mais um chiste do que “as ganhas”. Assim ia mantendo a alegria junto ao trabalho sério e profissional.

Porém como esse café cada dia um é que pagava, na hora de mandar comprar era aquele alvoroço.

- Mas tche. Quem vai comprar o café.

E um já dizia:

- Hoje é dia do Cabo Bruno pagar.

Era o mais moderno e sempre levava o pênalti.

O Cabo Bruno ficou esperto e já ia empurrando a vez e saltava fora dizendo:

- Não! Não!   Hoje é o Cabo Teixeira.

Putz grila, já me botaram no meio do entrevero, então eu já ia rebatendo:

- Que nada! Hoje quem paga é o Sargento Rode.

E esse por sua vez, arrumando o Rayban e retrucava:

- Não! Não! De novo eu, não!

E depois de muita charla e buchincho se acertavam e alguém pagava numa boa, sem estresse, na camaradagem, coisa que sempre fora a tônica daquela Seção.

No outro dia a mesma coisa acontecia, e começavam a discutir para saber quem pagava, e um já dizia.

- É o Teixeira, ele se esquivou ontem e o Sargento Adroaldo é que acabou pagando.

E eu lá do meu canto já soltava o verbo:

- Não! Hoje quem paga é o Capitão.

E todos concordavam e o Capitão sem muito xaraxaxá já metia a mão na guaiaca e de vereda mandava um reculuta comprar o tal café.

Os Soldados que a cada dia eram substituídos para o serviço de “chasque”, dois por dias não pagavam o café, e tomavam a vontade. Só os graduados e o Oficial eram os que arcavam com a despesa.

E no outro dia novamente era aquele empurra-empurra.

- Como é que é Teixeira, quando vais pagar o café.

- Mas Sarja, eu paguei ontem.

- Negativo! Quem pagou ontem novamente foi o Capitão.

- Mas se o Capitão pagou uma que pague duas vezes e ficamos acertados.

- Negativo. Negativo. Hoje é tu que vai pagar. Só fica na moita.

- Por que eu se o Cabo Acosta ainda não pagou?

- Mas o Cabo Acosta pagou duas vezes a semana passada.

- Tá bom! Tá bom! Eu pago.

E relancina já mandava um reculuta comprar o café, mas recomendava bem.

- Vá lá no Udo. É o melhor café.

Todos pagavam e todos ficavam satisfeitos e alegres, e com isso o grupo cada vez mais ia se unindo.

Unha e carne.

Corda e caçamba.

Era um ambiente de camaradagem, onde todos trabalhavam feito doidos para dar conta do serviço e cada um dentro da sua característica formava naquela Seção um marco de amizade e solidariedade.

Muitas vezes o serviço era tanto que eu era dispensado dos Serviços Gerais e da própria formatura diária, dando apenas o serviço de Sargento de Dia, e antes de clarear o dia, muitas vezes antes da Alvorada, quando o Quartel em silêncio dormia eu já estava em minha mesa e dê-lhe máquina, chegando a datilografar em apensas um dia mais de 30 matrizes (folhas), para o Boletim.

Mas a brincadeira do empurra-empurra continuava e até o capitão levava aquilo como uma maneira de fortalecer os vínculos de camaradagem, pois sabia bem que tudo era uma forma de tornar o ambiente agradável e isto era o que valia. Foi o melhor ambiente de trabalho que tive em minha vida, até que uma sobra taciturna chegou para trabalhar naquela Seção.

Certa feita houve a troca do Sargento Ajudante. Saiu um pau-ferro, também taita que fora promovido a Subtenente e em seu lugar foi um Primeiro Sargento que era antipatizado por quase todos dentro daquele quartel. Dos mil e tantos militares que ali serviam pouco eram os que tinham por ele alguma simpatia, mesmo que falsa, coisa já relatada neste blogue.

No momento em que ele foi para a Primeira Seção, as coisas degringolaram, e o ambiente de camaradagem acabou e todos andavam descontentes com aquela presença nefasta.

Mesmo antes de ir para essa Seção, o maleva já havia conquistado a antipatia de quase todos. Êta sujeitinho asqueroso, que em seu segundo contato com aquele grupo, logo que chegou ao quartel e assumira a Sargenteação da Primeira Companhia de Fuzileiros, indo até a Primeira Sessão tratar de assunto de serviço, foi extremamente arrogante, grosseiro e debochado com um jovem, quase menino Terceiro Sargento que ficara pouco tempo nesse Setor.

No outro dia tentou fazer a mesma coisa comigo e levou nos dedos, tanto de mim que era um simples Cabo, mas Cabo velho e escolado como do Capitão que ao ouvi-lo arrogante chamou o maleva na cincha, que saiu dali e foi direto para o sol secar a mijada que recebera.

Na Primeira Seção, tão logo tomou pé do ambiente, sendo um dos mais elevado Sargentos por graduação e antiguidade no regimento passou a por as manguinhas de fora. Havia no Regimento quatro Primeiros Sargentos mais antigos do que ele, porém esses estavam ocupando funções de Subtenente, inclusive o da minha Companhia, a 4ª de Fuzileiros, chamado Maciel.

E já na primeira oportunidade, ao ver em uma manhã a discussão para a compra do café, foi de enxerido se metendo e querendo dar um basta naquela hilária confraria do café.

Ao ver o emprurra-empurra que era feito só por brincadeira, foi logo ordenando.

- Silêncio!

Todos pararam de falar, momento em que o Capitão não estava na Seção e foi impondo.

- Isto é uma confusão, é todo o dia esta ladainha. A partir de hoje eu vou organizar a compra do café.

Todos se entreolharam, momento em que o Sargento Rode, do outro lado da Seção me olhou, pois sabia que eu não simpatizava nadica de nada com esse Primeiro Sargento, e apenas pelo olhar nos entendemos e eu fiz que não havia ouvido nada, indo para a minha mesa sem nada dizer evitando assim mais um atrito.

Fiquei só observando o Primeiro Sargento, o Honorífico, o Brigada do Regimento falar com empáfia e organizar a compra do café, dizendo:

- Fiz aqui uma relação de todos os graduados para que de maneira ordeira façam a compra do café.

- Êpa! Disse o Sargento Raul – E o Capitão vai ficar de fora?

- É verdade. - Disse eu de meu canto. – O Capitão entra no rateio, sim!

- É aqui não tem essa de por ser Oficial ficar de fora. Todo mundo entra na divisão – Disse o Sargento Rode (Rodeghiero).

O Primeiro Sargento ficou rubro, pois queria agradar o Capitão nas costas dos outros.

E um silêncio assustador tomou conta do Setor.

O Sargento Ajudante foi até sua mesa, acrescentou o nome do Capitão e voltou dizendo:

- Tudo bem! Coloquei o nome do Capitão, mas vou falar com ele para saber se ele quer ou não quer.

Olhei para o Rode, balancei a cabeça e desembuchei:

- Não tem que falar com o Capitão. Ele quer e vai pagar. O Capitão não é de ficar em cima do muro. Ele vai entrar no rateio sim! E vai pagar sim, como qualquer outro. Bolas!

- Mas Cabo, eu pensei em agradar a nossa chefia.

- Desculpe-me Sargento, eu respeito todo o mundo, mas não puxo o saco de ninguém.

Aí foi aquele zum-zum-zum no ouvido do honorífico, que com ódio me olhava.

Nesse momento adentrou a Seção o Capitão, na sua maneira despachada, firme e sem rodeios, com meia dúzia de papéis nas mãos e já de vereda foi distribuído à papelada aos interessados, cabendo a mim uma ordem de serviço que deveria ser publicado no Boletim Interno daquele dia, impreterivelmente.

E eu era o datilógrafo do Boletim Interno.

Todos em silêncio ficaram e eu fui logo atropelando.

- Capitão. O Sargento Ajudante está organizando a compra do café e eu, como lhe conheço bem, pedi que o seu nome fosse acrescentado à lista.

- É claro Teixeira! - Disse o Capitão - Fizeste bem. Na hora de pagar não tem essa de ser Oficial ou Praça. Todos são iguais.

- E depois, o senhor ganha bem. - Completei:

Todos caíram na risada, até o próprio Capitão, mas o Primeiro Sarja ficou com a cara de cadela que lambeu graxa  e mais uma vez vermelho como um tomate maduro e me fulminou com o olhar.

- Tudo bem - disse o Primeiro Sargento - então vamos modificar a maneira de adquirir o café. Ao invés de todos os dias mandar um Soldado atrás de café nós faremos de maneira civilizada e organizada.

Todos se entreolharam. Este civilizada pegou mal.

E Continuou:

- Doravante faremos a compra semanal do café, cabendo a cada um a despesa da semana. Compraremos uma lata de café solúvel, um quilo de açúcar ou mais se precisar e para dar uma melhorada compraremos leite em pó, assim o nosso café ficará mais nutritivo.

Silêncio sepulcral.

- Como eu sou a Praça mais antiga e fui eu quem organizou, serei eu o primeiro a comprar os ingredientes, a iniciar na próxima segunda-feira. – Completou o Sargento Ajudante.

Neste momento eu perguntei:

- Sim, tudo bem. Mas e hoje quem compra o café?

O Capitão imediatamente disse:

- Hoje é sexta-feira, o melhor dia da semana. Então pago eu.

E já foi tirando o dinheiro do bolso e já mandou o Cabo Morais providenciar o café, tão logo chegassem a Seção os dois soldados “Ordens”, que serviriam de chasques.

Na segundo feira todos em seus postos após a Formatura Diária, quando chegou à Seção o Primeiro Sargento Ajudante, carregando dois pacotes de açúcar, uma lata de café solúvel e duas de leite em pó.

A água quente viria do Rancho e dois termos. Dois de manhã e dois à tarde.

Beleza. Fui uma semana sem incidentes, café com leite quentinho e doce. E todos se fartaram.

Na sexta-feira ainda havia leite em pó e café, então outros militares de outros setores foram um a um convidados para saborear o melhor café do Regimento, até gastar a última colher de açúcar, café e leite.

Terminado o expediente de sexta-feira, todos se despediram para encarar um belo fim de semana, mas ninguém falou sobre o assunto, ninguém combinou nada.

Porém...

Na segunda-feira, antes do início do expediente todos na Seção em volta da mesa do Capitão conversavam sobre o descanso semanal e como o capitão e eu viajávamos todos os fins de semana para Porto Alegre o assunto rendeu, quando a essa Seção chegou o Sargento Ajudante, não sei por que era sempre o último a chegar, saudou o Capitão com a tradicional continência e todos que ali estava a ele também saudaram militarmente.

Foi até sua mesa e pegou em uma gaveta a relação rigorosamente por ordem de antiguidade, deixando apenas o Capitão como o último da lista.

Baita puxa-saco e caborteiro.

- Pessoal! – Disse ele – O próximo da lista, por antiguidade é o Segundo Sargento Raul.

Virando-se então para esse Segundo Sargento perguntou:

- O Senhor trouxe os ingredientes para o café?

Ninguém, como disse havia combinado, mas todos se conheciam muito bem.

O Sargento Raul respondeu:

- Olha pessoal! Eu não trouxe o café e não quero mais participar deste rateio. Estou fora.

O Sargento Ajudante meio perdido, ficou embasbacado e disse:

- Então o seguinte da lista é o Sargento Rode.

Esse por sua vez era também pau-ferro disse que não participaria mais do rateio, e assim um a um até chegar ao Cabo Bruno que era o mais moderno, foram retirando seus nomes da lista, esvaziando a festa.

O Capitão surpreso ficou só observando a puxada de tapete que todos deram no Primeiro Sargento, pois no fundo o Capitão sabia que ninguém topava a cara daquele alcaide.

Orre tasca.


O Sargento Ajudante foi o único a pagar.

Mas não aprendeu e levou duas outras belas bordoadas naquela Seção, uma já relatada neste blogue, fora punições que sofrera durante todo o seu tempo de Exército. Somente o meu pai, no inicio dos anos 50 havia dado duas puadas nele quanto esse ainda era Cabo e meu pai era dele Sargenteante. Por esse motivo tanto me odiava.

Resumindo, o Capitão taita macanudo conseguiu junto ao Comando da Unidade que o rancho fornecesse o café não só para a Primeira Seção, como para outros setores, já que muito café sobrava no Rancho após o desjejum da tropa.

Tem gente que precisa levar na cabeça para aprender, mas muitos como esse jamais aprenderão.



Glossário Gauchês.
   
Reculuta:    - Recruta
Pau-ferro     - Amigo do peito. Fiel. Que está sempre contigo nas boas e nas más horas.
Chasque     -  Mandalete, Guri de recado. Office boy
Taita             Valente. Destemido.Guapo.Altaneiro.Disposto.
Puada          Golpe. Pancada. Sentar a pua.
Orre Tasca  - Expressão de contentamento, quando alguém se dá mal.
Macanudo  - Vem de bacana. Bom. alinhado.
Alcaide        Imprestável. Despresível. Sem Valor.
Compra Camorra: Comprar uma briga. Reagir a uma provocação.
Caborteiro  - Velhaco. Mentiroso. Tratante,Má índole.
Termo - Garrafa térmica.
       
Honestidade:
Cada pessoa tem seu grau de honestidade.
Muitos viram no primeiro quadro um Cabo tirando o dinheiro do bolso do outro.
Porém no segundo quadro o dinheiro continua no bolso.
Ou seja, quem tem o conceito de honestidade elevado viu que o Cabo não está tirando o dinheiro do bolso do outro, e sim discretamente está colocando o dinheiro, pois o segundo deveria pagar o café, mas estava sem dinheiro, o primeiro, por ser camarada discretamente colocou o dinheiro no bolso do outro, para evitar o constrangimento do amigo.
Assim é que funcionava.

Porém sempre a maioria vai ver o mal nas coisas e nunca o correto, pois vai se colocar como vítima ou falcatrua.


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