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sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Entre o Céu e a Terra - 4


O Cabo Rancheiro

No então 9º Regimento de Infantaria, trabalhei por alguns anos na Casa-da-Ordem, ou simplesmente S-1, o que na atividade civil seria o Departamento de Pessoal.

Nesta Seção, entre outras coisas é feito o Boletim Interno, documento que diariamente é publicado, dando conhecimento de todos os atos e fatos ocorridos ou por ocorrer em uma Unidade das Forças Armadas, bem como nos comando acima.

É na Casa da Ordem que se têm os dados sobre o efetivo da Unidade, fichas individuais de cada militar e de onde  emanam as escalas de serviços. Efetividade, apresentações e transferências.

Nesta Seção todos os Oficiais e Praças devem se apresentar, quando de retorno de licenças, viagens ou quando chegam transferidos de outras Unidades, ou quando dela, por qualquer motivo venham se afastar, assim como os militares em transito pela guarnição.

Certo dia apresentou-se ao Capitão S-1, um Cabo, oriundo de São Leopoldo, de nome Lautert. Era um Cabo de seus 28 anos, alto, loiro, já que sua origem, conforme podemos observar pelo sobrenome, era alemã, que iria ocupar uma vaga no efetivo do Rancho. É no chamado Rancho que se preparam os alimentos a serem ingeridos pela tropa.

Observei esse Cabo de minha mesa, por alguns instantes e notei que o mesmo, levando-se em conta estar chegando a uma nova Unidade, poderia estar meio sestroso, mas não era por este motivo que ele trazia certa tristeza no olhar.

Foi designado para servir na mesma Companhia, da qual eu fazia parte do efetivo, a CC-1. Companhia de Comando do Primeiro Batalhão


Na manhã seguinte, como de hábito, cheguei cedo ao Regimento e fui direto para o S-1, já que era dispensado pelo comando da Parada Diária, a não ser nos dias em que estava de serviço, e somente de Sargento-de-Dia.

No início do expediente da tarde, estando o Boletim Interno já bem adiantado, solicitei ao Capitão S-1, para ir até a Companhia, não havia nenhum motivo especial, mas algo me dizia para ir até lá.

Passei pela Sargenteação, onde cumprimentei o Sargenteante da mesma, o Primeiro Sargento Abrantes, entrando após no alojamento vazio, onde apenas o Plantão ali estava em seu rotineiro serviço. 

Observei, entretanto que alguns cabos conversando no Quarto dos Cabos, e para lá me dirigi.

Ao entrar em tal dependência, encontrei o Cabo Cláudio Roberto Ribeiro, sentado em uma das camas, ao seu lado o cabo ajudante da Reserva, cujo nome de guerra era Veiga e em outra cama estava o Cabo Elomar da Silva Acosta da 5ª. Cia Fzo, e em pé, encostado em um armário, estava o tal Cabo Lautert, que jamais havia com ele falado.

Havia dois outros Cabos presentes, porém não consigo sequer lembrar os seus nomes, Eram dois Cabos recém-promovidos que quanto entrei os dois que estavam sentados no piso do quarto, levantaram-se prontamente perfilados. O Cabo Acosta, levantou-se e lembro exatamente de sua fisionomia naquele momento, pois também era um cabo recém-promovido. E depois que deixamos o Exército continuamos amigos, até hoje.

No momento em que adentrei ao quarto, tal cabo, que já havia me visto no S-1, olhou-me indagativamente sem nada dizer, apenas me olhou, e eu disse:


- Tu és o Cabo Lautert. Está chegando ao Regimento. Esta é uma ótima Unidade do Exército, talvez a melhor. E tu foste de uma infância pobre e sofrida, pois teu pai muito bebia deixando tua mãe, tu e seus irmãos, muitas vezes passando fome, mas não deixava de encher a cara e passar noites a fio em bebedeiras. Muitas vezes ele se tornava agressivo e agredia a todos em casa. Entretanto teu avô era muito teu amigo, tentava sempre defender-te das agressões. Era mais que um amigo, que tu amavas muito. A maior tristeza de tua vida foi o dia em que teu avô faleceu. Sofrestes muito. Chorastes muitos. E a partir deste dia, não tendo mais o amigo para te proteger, resolvestes ainda um menino ir à luta, por conta própria, mas não ficar vendo as bebedeiras e os maus tratos e saístes de casa. Hoje tu és casado e tens duas filhas, que são os amores de tua vida. Veja os exemplos do passado não como motivo de tristeza e sim de aprendizado.

E conforme eu falava o Cabo Lautert foi se arriando até sentar ao chão, chorando, o que vinha a confirmar cada palavra que eu dissera.



Passei a mão em sua cabeça e sem mais nada dizer me retirei, deixando os cinco outros Cabos pasmos entreolhando-se, enquanto Lautert, continuava sentado ao chão com as mãos no rosto num choro triste e doído.  Eu saí do quarto dos Cabos sem mais nada dizer e voltei para o S-1.

Jamais tocamos no assunto. E poucas vezes revi esse Cabo. Quanto aos outros também jamais tocaram num assunto tão pessoal, chocante e triste.

Estas coisas vieram a se repetirem em outros locais e com outras pessoas.
Algo que temos e por enquanto nem as ciências tem uma explicação, mas em breve vamos saber como isso se manifesta, obviamente não é nada religioso, longe disto e sim um poder de nossa mente. Um poder desconhecido.



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