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segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Surungo




                                    Meu pai, Dom Floribal Farias Teixeira


Numa bela e ensolarada tarde de sábado do ano de 1939 após ter saído do quartel onde servia meu pai, levando uma árdua vida, sobrevivendo com um parco salário de segundo-cabo do Exército, graduação que há muito tempo foi extinta, passou pela casa de sua mãe, para dar notícias, já que ficava no caminho da sua casa.

Estava sua mãe na pequena sala, juntamente com vovô Garcia, num belo papo, ouvindo as vaneiras, os chamamés, que ecoavam rua a fora, já que a uma quadra e meia de sua casa, havia um “surungo”, daqueles bem macadudos, onde as meninas, umas bisonhas e outras algariadas e rapazes da vila, divertiam-se acompanhados obviamente de seus pais, que a tudo observavam, quando meu pai disse à minha avó: 

- Mãe, vou dar uma olhadinha no baile, é coisa rápida.

Saiu ligeirito, a passos largos em direção do salão, ostentando garbosamente seu uniforme verde-oliva, com duas longas divisas prateadas que cobriam seus finos antebraços.

Andou alguns passos, em sua magreza, que deixava o uniforme meio solto no corpo, pela rua empoeirada e resolveu voltar para casa de vovó, pois necessitava ir à latrina que ficava nos fundos do pátio, estava com muita vontade de urinar. Entrou pelo lado da casa e não foi visto por meus avós, que continuavam na sala conversando e tomando seu chimarrão, ouvindo a música que do baile ecoava. 

Nesse momento, no salão, um também cabo do Exército, resolveu tirar uma menina para dançar, mas esta, por estar ele fardado, declinou do convite, o que na época era uma coisa indesculpável. O referido cabo, mui guapo, envergonhado com o carão da menina, impensadamente chamou-a de “lasqueada”. Lasqueada era uma grande ofensa, que deixou a menina rubra de vergonha.

Formou-se imediatamente um buchincho mais feio do que briga de foice no escuro, em torno da referida praça-de-pré, que solito se defendia e batia com vontade cercado por um bando de paisanos. Ofensas, gritos e num repente, um irmão da moçoila ofendida, um magro, conhecido pela alcunha de Carne-Assada, puxou o talher de briga, dois palmos e meio de comprido e varou mortalmente o jovem militar, que ensangüentado caiu ao chão provocando uma correria do povo que estava no baile rua a fora, feito angolistas desnorteadas. 

Aquela correria e gritedo chamaram a atenção de meus avós, que ao ver aquele alvoroço, correram até a frente da casa e no portão de madeira que estava aberto, e que há minutos antes viram seu filho sair, ouviram alguém que correndo para deixar a cena do crime dizer alto e claro:
  
- Mataram um cabo do Nono.

Nono que o cidadão se referia era o 9º. Regimento de Infantaria, unidade histórica do Exército Brasileiro sediado em Pelotas. (Hoje Batalhão)
  
Ao ouvirem aquilo, o pânico tomou conta de meus avós, que no desespero, lembrando que o filho a pouco saíra para ir dar uma olhadela no baile, como doidos correram pela estreita rua em direção ao tal salão, num pavor sem igual e com um macabro pensamento em suas mentes. 

Floribal saindo da latrina, após ter tirado a “água do joelho” viu também aquele alvoroço na rua, e sem entender o que estava acontecendo, correu até o canto da casa e viu sua mãe, minha avó Bibira correndo desesperada ao lado de Garcia, segurando-o pelo braço esquerdo em direção ao salão, e correu atrás deles para saber aonde iam com tanta pressa e o que estava ocorrendo e como era um jovenzito, alcançou logo o casal e segurando sua mãe pelo braço, perguntou:

 - Mamãe, o que está acontecendo?

Minha avó, pálida como uma vela de estearina, parou, olhou desesperadamente para o filho e em quase horror disse aos gritos e lágrimas, levantando os braços para os céus:

- Te mataram meu filho! 
- Te mataram!

Coitada de minha avó, no desespero de pensar que era o seu amado filho que havia sido morto, numa dor sem igual que somente os que perdem um filho para a estupidez humana, sabem o quanto esta dor deixa a pessoa cega e não consegue concatenar seus pensamentos.

E aí diz aquela música gaúcha que:

O surungo p’ra ser bom,
Tem que dançar de cara cheia,
Três ou quatro horas de baile,
Quatro ou cinco de peleia.


      Mamãe e papai em um baile, e ao fundo Tia Maria,irmã de meu pai
     dançando com Tio Florício Costa. (hoje tia Maria está com 96 anos)

2 comentários:

  1. Que bela história Pedro. Já tinha ouvido você contá-la. Escrita assim ganhou um ar de "causo"...Muito bom...Beijos...Feliz 2013!!!

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  2. Oi colega amada! Que bom tê-la por aqui. Fico satisfeito que tenhas gostado desta história, um pouco do resgate de minha família e pelo visto estás curtinho um sol, areia e mar. Que legal. Boas férias. Um grande abraço.

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