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domingo, 20 de dezembro de 2015

Quando eu era piá.


Lá pelas canhadas dos anos 50, nas bibocas em que vivia lá no meu rincãozito arrabalero do Fragata, havia uma pulperia na esquina da Rua Afonso Pena com a Primeira Entrada, a légua de beiço da antiga Avenida Daltro Filho, cerquito de nossa casa.


Era um velho bolicho, de chão batido e surrado balcão de tábuas carcomidas pelo tempo, onde alguns borrachos passavam horas proseando e enchendo as fuças de canha buenacha, e volta e meia saiam do balcão para o vendeiro poder atender alguns raros clientes que entravam em sua venda mais acanhada que guria biguana em festa de casamento.

Nesta pulperia vendia-se de tudo, (se tivesse) e onde se comprava as cousas a granel (se tivesse).

Feijão, arroz, farinha e até açúcar, açúcar grosso e tão sujo quanto esses políticos calaveiras que infestam nossas Câmaras, Casas Legislativas e Congresso, eram vendidos por quilo ou por gramas, tirados diretamente de sacos ou das tulhas de madeira ou barris e pesados em balanças caborteiras que afanavam em favor do vendeiro, que também era um pobre diabo, miserável igual ao povo, que muitas vezes acertava os pratos da balança com o dedo, e sempre a seu favor.

Mas o povo bacudo e abichornado pela situação de extrema miséria, pouco botava tento, pois as compras eram de pequena monta o que mascarava a careza.

Porém de grão em grão a caderneta ia se enfarando e ao chegar o fim do mês muitos não tinham como acertar, pois com as guaiacas mais vazias do que cabeça de pingunchita algariada, ficava difícil de cumprir com os compromissos. Mas cumpriam mesmo tendo que apertar daqui e dali ou dar uma gauderiada junto a amigos e parentes para conseguir unas platas emprestadas. Mas o que valia era o fio do bigode.

E a coisa era meio na confiança. Porém confiar no vendeiro era uma temeridade. Era como confiar no gato para cuidar do peixe.

Havia um bolicheiro na Avenida que ficava com as cadernetas em seu quiosque, e a cada semana colocava em todos os cadernos “um pão cacete e um litro de leite”.

Quando chegava o fim de mês, o povo ia acertar as contas e aquele que reclamasse de alguma anotação ele prontamente riscava sem delongas e dizia com a maior cara estanhada que não seria por um pão que iria perder um freguês tão bom e honesto, mas os outros não se davam por conta e de quase todos ganhava vário pães e vários litros de leite.


Lembrando que a indiada era analfabeta, pois a esmagadora maioria, quase que 80% da população não sabia juntar as letrinhas, muito menos decifrá-las.

Lembro que pelo ano de 1955 minha irmã mais velha, com quinze anos, foi até a Loja Velocino Torres, juntamente com minha mãe, pois ela queria trabalhar e ter o seu dinheirinho.

Ao preencher a ficha o dono da Loja boquiaberto disse à minha mãe:

- Dona Maria, essa menina era para trabalhar em algum banco, pois ela tem muito mais instrução do que eu que sou o dono da Loja.

Era muito estudo, já que minha irmã havia se formado há dois ou três anos atrás no 5º ano primário.

Era realmente um país surreal, onde os bacudos não tinham a menor ideia do que ocorria no próprio potreiro.

Mamãe um dia me deu um copo e disse para que eu fosse ao bolicho do Tuco-Tuco comprar meio copo de azeite puro de oliva. E lá fui eu todo empolado.

- Bom dia seu Tuco-Tuco, minha mãe quer meio copo de azeite.

E ai o bolicheiro pegou a lata de azeito Sol Levante e mediu meio copo a olho daquela preciosidade dourada e anotou no caderninho, “meio copo de azeite”.

Era tudo no mais ou menos. Mas geralmente era para menos.

Hoje esses alcaides vivem reclamando de tudo, até da saúde. Naquela época a saúde era precária e o que se tinha eram os chás e as rezas, como se reza adiantasse alguma coisa. Tanto que a maioria das crianças morria antes de completar um ano. Era comum os piazitos morrerem antes mesmo de aprender a andar, mesmo com muitas rezas e promessas à Tupanci.

O povo baiquara achava que tudo era um projeto de um patrão velho que vivia bisbilhotando a vida dos outros, castigando por qualquer coisa. E até hoje a maioria ainda acredita nessa fábula. Pelo menos deixaram de acreditar em mula sem cabeça, saci Pererê, e mboitatá, apesar de ter por ai uns caborteiros ladinos que vivem botando nas ideias dos pobres biguanos que é assim, e que existem mesmo essas coisas de outro mundo e que um velho de barbas brancas como velo, vive bispando a vida de cada vivente, para que na hora da morte possa apartar as almas em potreiros diferentes. Ou este maleva não tem o que fazer ou é um baita enxerido e fofoqueiro.

Penso eu, que só existem os calaveiras é porque existem muitos baiquaras trouxas que vivem pedindo para serem empulhados e lesados. Lesados são das catracas, que não funcionam bem.

Mas bah! Me tapo de nojo.

Enquanto o povaréu vivia na maior míngua, numa pindaíba de dar dó, os alcaides que governavam esse país não ligavam para esse infortúnio, e levavam as coisas meio no manotaço, pois um país que ainda era governado por coronéis sem patente só poderia ser um atraso bagual de dar pena.

Esses alcaides ainda mandavam mais que a própria justiça, coisa que não havia, era um país que quem tinha mandava e o resto da indiada baixava a cabeça feito terneiro com bicheira e nada dizia.


Certa feita, quando o retaco Getúlio pegou o boca-de-sino e trovejou bala no próprio peito, matando-se com um estanhaço, nesse bolicho que nós chamávamos de venda o povaréu ali reunido, biguanada de todos os matizes, baiquaras, mambiras e borratchos, comentavam o trágico desfecho do Getulismo, e eu, mandinho de 8 anos pouco entendia, mas já contestava em meus pensamentos a bondade desse tal patrão velho lá de riba. Para mim o pior dos caborteiros que só ajudava os abonados, deixando o povaréu à míngua.

Tanto que no seguinte ano, aos nove aninhos de idade rompi de vereda com a igreja.

Meus pais nunca foram de andar nesses entreveros, onde gente sem esperança, mal amadas, tísicos e meio abobadas das ideias vivem pedindo e pedindo. Ou pedem coisas materiais ou o mal dos outros. 

Meus pais nunca foram papa hóstias ou decoradores de versículos, e quando eu briguei com o padre Jorge e desfiz meus tênues laços com a igreja, meus pais deram de ombros.

Lá no fundo sabiam eles que esse meio não passava de um confraria de tramposos que viviam e vivem explorando esse povo que ainda continua mais iludido do que mariposa em volta de candeeiro.

Os desenhos que ilustram esta matéria são de minha autoria, reservando-se o direito de uso somente ao autor.


2 comentários:

  1. Olá caríssimo Monteiro.
    Entre outras coisas costumo escrever em Gauchês para que também não se perca como muitas coisas de nossa história e folclore. Hoje vejo com tristeza que a gurizada da Grande Porto Alegre e regiões de colonização alemã e italiana não sabem nada deste dialeto tão rico, bonito e único.
    Um grande abraço e belíssimo ano que se aprochega meio no atropelo!
    Prof. Pedro

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