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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Afogamento.


Corria o ano de 1947, papai para dar um divertimento aos filhos que quase nada tinham para brincar, não havia games, computador, celular, nada que essa gurizada já nasce usando e vivem reclamando, fez com uma velha corda um balanço na porta de um grande galpão aos fundos da pobre casa. Quase todas eram de pobres a miseráveis a não ser de uma pequena, abastada, fleumática e burra burguesia que moravam em palacetes e casarões na cidade de Pelotas.


Para passar o tempo muitas vezes ficávamos à janela da sala olhando o bucólico movimento da rua. Cachorros, cavalos e vacas, que lerdas pastavam do outro lado da cerca em enorme campo que se estendia da frente de nossa casa até o Parque Sousa Soares e nenhuma construção havia naquele imenso espaço vazio.

Durante a semana passava em frente a nossa casa uma ou duas fubicas que serviam para que fizéssemos enorme algazarra ao ver aquelas geringonças rodando rua a fora.

                 Joaquim e Ieda

O balanço passou a ser a brincadeira de Ieda e Joaquim, já adultos feitos, ela com 8 anos e ele com 4 aninhos, eu não havia completado ainda dois anos.

Brincavam, riam, se divertiam.


Nesse galpão havia dois tanques. Um pequeno onde mamãe eventualmente lavava roupas, pois geralmente ela fazia em uma tina que havia no meio do pátio e outro tanque grande onde ela reservava água para algumas necessidades, já que o abastecimento era precário.

No pátio interno da casa havia um terceiro tanque, que sempre bem limpo e bem coberto servia em último caso para beber, fora enorme barril que mamãe mantinha na cozinha, sempre com água fresca, não só para beber como para cozinhar.

Deste galpão, por uma porta interna se entrava na latrina. Latrina essa equipada com o que havia de mais moderno, pois no lugar do profundo buraco fétido e cheio de excrementos humanos o que tínhamos era o que toda a vizinhança tinha, o valoroso cabungo. (leia Cabungueiros e seus cabungos, publicado neste blogue em 03 de março de 2012).

Certa feita meus irmão resolveram me colocar naquele tosco balanço, sem nenhuma segurança.

E conforme Ieda e Joaquim revezavam-se a me empurrar, mais alto ia e quanto mais alto mais assombrado eu ficava.

Num determinado momento Ieda empurrou-me com tanta força que meus pezinhos quase tocaram as folhas de zinco ondulado que cobriam aquele velho galpão. Neste momento meus bracinhos não suportando mais o peso de meu esquálido corpo fez com que minhas mãos soltassem a corda e num instante despenquei dento daquele enorme tanque, afundando imediatamente.


Nada mais me lembro deste fatídico dia, pois no momento em que mergulhei nas águas frias e para mim, profundas daquele enorme tanque, as coisas se apagaram e tudo mais sei de ouvir minha mãe contar.

Sem saber o que fazer Ieda e Joaquim, apavorados correram para dentro de casa e se esconderam em um dos quartos.

Mamãe que estava na cozinha, como sempre cozinhando, fazia ela a janta, ao ver os dois correndo miudinho e apavorados para dentro de casa, no seu 6º, 7º, 8º, milésimo sentido percebeu que algo de errado estava acontecendo, e como uma flecha correu para o galpão escuro, já que o Sol estava se pondo.


Sabia ela que eu estava com eles brincando e não me encontrando, sua fera interior aflorou e ela como uma gata correu para o taque e nele literalmente mergulhou, ali me encontrou submerso já quase me afogado.

Por um de meus pés levantou-me para fora d’água e no desespero começou a bater firme e forte em minhas costas, mantendo-me meio de cabeça para baixo.

Neste instante, já quase no derradeiro instante eu abri o tarro e comecei a chorar.

Minha amada (sorrateiras lágrimas) mãe!

Pela segunda vez me deste a vida. (mais lágrimas sorrateiras).

Minha heroína amada. Minha salvadora.



No mesmo instante, inteirado do ocorrido, noite já escura como breu, papai, que havia a pouco chegado do Quartel, num repente foi até o velho galpão e retirou o balanço e nunca mais tivemos onde nos balançar.

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