Cabo
Lautert, Cabo Cozinheiro que servia em uma Unidade em São Leopoldo, fora transferido
para o 9° RI em Pelotas, sendo designado para a CC/1, Companhia de Comando do
1° Batalhão, Companhia que eu fazia parte do efetivo e no mesmo dia de sua
apresentação, à tarde desci da Casa da Ordem e fui até minha companhia. Lá
chegando notei que havia alguns Cabos conversando no quarto aos Cabos destinado
e para lá me dirigi.
Ao
entrar nesta dependência encontrei os Cabos Claúdio Roberto Ribeiro, Elomar da
Silva Acosta, Veiga e um outro Cabo cujo nome não me lembro e todos conversavam
com esse recém chegado Cabo Lautert.
Ao
entrar naquele quarto o Cabo Elomar da Silva Acosta, recém-promovido que estava
sentado em uma cama, rapidamente levantou-se, perfilando-se sendo seguido pelos
demais., numa época que a disciplina era mais dura e eu como o mais antigo, a
todo cumprimentei com a saudação militar. O Cabo Lautert que havia me visto
horas antes na Casa da Ordem, estava sentado ao chão recostado a um armário,
fez menção de levantar-se, mas rapidamente segurei-o pelo ombro para que o
mesmo não se levantasse, cumprimentando-o, assim como aos demais.
Sem
nada dizer aos demais cabos disse a esse novato no Regimento.
- “Me” relate uma estrada e um muro a
sua frente cortando essa estrada. Como é essa estrada? O que você faria?
Sem
nada entender, levantou-se e sob os olhares atônitos dos demais Cabos me
relatou sobre a estrada, detalhes ao longo dessa, o muro e sobre uma grande e
velha árvore caída atrás desse muro, que com alguma dificuldade o pulou e segui
por aquela estrada e outros detalhes menores.
Enquanto
ele contava, em minha mente foi se formando uma história muito triste e cheia
de detalhes. Uma coisa incompreensível, o que me causava certo mal estar e ao
terminar o seu curto relato a ele disse:
- Tu
tiveste uma infância muito pesada e sofrida, teu pai bebia muito e quando, sob
o efeito do álcool, te surrava muito e tua mãe também era muitas vezes agredida,
mas sempre teu avô corria para te defender das agressões. Era a tua proteção. Aos teus 12 anos teu avô faleceu e tu ficaste
sem teu amigo e protetor. Sentiste muito essa perda, pois o amavas muito e resolveste
então sair de casa e passaste a viver pelas ruas fazendo serviços esporádicos
que eram suficientes para viver, passando muitas necessidades. Entraste para o
Exército e logo foste promovido. Hoje és casado e tens duas filhas, amores de
tua vida. Lembre-se que elas são o motivo de tuas alegrias. ]Não bebas como
fazia teu pai e não as maltrates, cuide bem delas e de tua esposa.
O Cabo chorando arriou-se novamente ao chão com o rosto
entre as mãos. Passei-lhe a mão em sua cabeça, bati os calcanhares e ao me
retirar, ele, com lágrimas nos olhos que corriam em seu rosto já naturalmente
pálido, disse:
- Tudo o que o Senhor disse realmente aconteceu comigo.
Impressionante como sabes de todos esses detalhes de minha vida.
Retirei-me daquele quarto sob os olhares atônitos dos demais
Cabos, todos mais modernos e nunca mais falamos sobre esse sensível episódio.
Encontrávamos raramente em formatura, mas nunca mais tocamos
no assunto. É sempre, é bom lembrar, que raríssimas vezes com ele falei, sendo
que ele parecia evitar tais contatos.
São coisas inexplicáveis que fogem de nossa compreensão.
Resolvi publicar essa história porque ontem à tarde contei esse episódio à
minha companheira de mais de 50 anos, minha caríssima esposa, coisa que jamais
fizera e me emocionei a tal ponto que, enquanto a ela relatava esse ocorrido,
três ou quatro vezes tive que interrompe-lo devido a forte emoção que sentia.
Essas coisas inexplicáveis ocorrem com certa frequência que
com o tempo passarei a relata-las neste espaço, lembrando a todos que nada
disto tem a ver com religião, pois aos 9 anos de idade, na cidade de Pelotas,
na Escola São Pedro do Fragata aonde estudava, mesmo sendo um menino, discuti
com o Padre Jorge, professor de CATECISMO dessa escola e naquela época rompi
com a Igreja, não fazendo nem a “primeira comunhão” que eu achava um total
idiotice, tornando-me com o passar dos anos em um ateu convicto
"HÁ MAIS COISAS ENTRE O CÉU E A
TERRA, HORÁCIO, DO QUE SONHA A NOSSA VÃ FILOSOFIA". Esta citação é
do dramaturgo inglês William Shakespeare, mais especificamente da peça
"Hamlet".
Cachorros, cavalos e principalmente gatos, entre outros
animais, que não tem religião alguma, sentem coisas que muitas vezes nós não
conseguimos ver, entender ou explicar. Tinha um cachorro, de nome Jeff, nome
dado por minha irmã mais velha, na época com 19 anos, em 1958 que era
“apaixonada” pelo ator americano Jeff Chandler e esse cachorro, mesmo depois de
morto, o ouvia correndo no corredor de nossa casa, mas nunca me assustava, pois
Jeff era um amigão do peito.