Caros amigos e amigas,
leitores deste espaço, passo a transcrever abaixo, parte de meu livro ainda sem
título, sobre minhas memórias, histórias hilárias, emocionantes e muitas delas
tristes, mas que foram o cimento que embasou minha vida, com isto quero deixar
para meus filhos as raízes de nossa saga, que começa, pelas informações que
disponho desde o fim do Século XVIII, e se mais rico não ficará este livro
foram por motivos não entendidos, pois muito de nossa história, como
documentos, fotos e outros materiais, por despeito ou vergonha a mim não foram
entregues com a morte de meus saudosos pais. Desculpo os que assim procederam,
mas felizmente tenho uma memória privilegiada e conto com narrativas dos
troncos mais antigos da família que me propiciaram escrever esse livro:
Meu pai, Floribal Farias Teixeira
...
Nesta época Lourival, meu avô,
passava o seu tempo de folga, lendo. Lendo tudo que aparecesse em sua frente.
Devorava livros e jornais, numa avidez sem precedentes, era um homem
inteligente que viera de uma infância educada e instruída, o que o conduzia
cada vez mais para o conhecimento. E foi sempre assim, mesmo depois de
aposentado continuava suas longas leituras, devorando livros e mais livros em
constantes visitas à Biblioteca Pública de Pelotas e o que sempre chamou minha atenção
quando menino, de dez ou onze anos, era que meu avô lia costumeiramente o Diário
Popular de Pelotas, e de posse de uma caneta ou lápis, corrigia todos os erros
de português, até mesmo os das propagandas e anúncios, chamados na época de
“reclames”.
Algum tempo depois meus avós voltaram para Pelotas,
provavelmente em março de 1924, já separados. Ele foi trabalhar como balconista
das Lojas Rochedo, onde permaneceu até o ano seguinte quando abriu o seu
próprio negócio, um armazém de secos e molhados na Rua Almirante Barroso, onde morava
ocasionalmente sua sogra Maria Emília, e seus filhos Floribal e Maria.
Minha avó Idelvira, mais conhecida como Bibira, com
agora um só filho, de nome Gumercindo, desempregada e sem perspectivas,
resolveu dar o seu filho menor aos padrinhos deste, João Francisco e Francisca,
para que eles o criassem, tendo assim o menino, onde morar e o que comer. (1).
Os filhos mais velhos Floribal, meu pai e Maria
Rafaela, sua irmã, passavam algum tempo com o pai em seu armazém e em outros
curtos períodos com a mãe. Tempos antes, numa época de muitas dificuldades Floribal,
ainda um menino de seis anos, trabalhara por algum tempo em uma olaria. Seu
serviço era o de tocar a mula que passava longas horas em volta do amassador de
barro, movimentando a engenhoca. E tão logo o barro fosse devidamente triturado
e amassado eram feitos os tijolos, manualmente, um a um, em formas de madeira,
por experientes oleiros que trabalhavam de sol-a-sol, descalços e famélicos e
sem nenhum direito trabalhista. Livres escravos ignorantes.
Também nessa época, Floribal fora matriculado no
colégio para cursar o chamado primeiro livro. Pouco conseguia aprender, mas
conseguiu passar para o segundo livro. O que foi uma vitória.
No fim do ano de 1925, na escola em que ele estudava,
houve uma festa de Natal e lá foi o miserável menino Floribal, com suas
perninhas brancas e finas de pés descalços, pois sabia que haveria uma
distribuição pobre de brinquedos, mas para ele seria o máximo, afinal os únicos
brinquedos que tinha eram por ele próprio feitos de pedaços de tábuas ou barro.
Ao chegar a hora tão esperada viu um belo bonde,
chamados em Portugal de elétrico, feito de lata, amarelinho como eram os
bondes, da Cia Light & Power, que fazia o transporte público em Pelotas,
com suas rodinhas negras que bem retratavam as verdadeiras rodas. Seus olhos
vidraram de emoção, seu coração disparou em desejo de ter aquele belo
brinquedo. Era tudo que um pobre menino, um miserável menino podia esperar no
Natal. Ficou por muitos minutos namorando aquele belo bonde, e quando chegou a
sua vez de ganhar um presente uma jovem professora passou a mão em seus negros
e ondulados cabelos, olhou seus tristes olhinhos e foi até a mesa onde estavam
os brinquedos e trouxe-lhe o tão sonhado bonde.
Mais uma vez seu coraçãozinho disparou de emoção, sua
alegria fez brilhar seus ternos, tristes e meigos olhinhos verdes e ele
engasgado nessa pura e inocente alegria, emocionado e feliz, esticou os
bracinhos finos, com seus dedinhos tremendo de emoção.
Mas nesse exato momento a diretora da escola saltou a
frente da sua professorinha tirando-lhe das mãos o tão encantador bonde e
disse:
- Ele não precisa disto e sim de um par de carpins,
(meias).
Foi como uma punhalada em seu já sofrido coração e com
os olhos transbordando em lágrimas de tristeza viu seu sonho acabar
abruptamente, o chão abriu-se sob seus pezinhos e mais uma vez a vida o
empurrava para a mais profunda dor, mas como consolo tinha pelo menos um par de
carpins que o ajudariam a secar as lágrimas que lhes corriam céleres pelo seu
rostinho pálido e sereno.
Muitas vezes quando papai contava esta triste história
seus olhos se enchiam de lágrimas, e eu, um menino me retirava para um canto
isolado em nosso, para mim extenso pátio, e a sombra de uma árvore ou
aconchegado em minha cama, me debulhava em prantos, de tanta pena de meu pai, o
que me fez verter lágrimas neste momento.
Foi o primeiro e último ano que ele frequentaria
aquela escola, seus estudos reiniciariam quando sentou praça ao Exército em 1936,
e passou a frequentar ocasionalmente a Escola Regimental. Mas seus estudos mais
proveitosos eram feitos em companhia de seu amigo e colega de farda o então
soldado Frederico Schwanz, que viera a ser meu padrinho e que muito auxiliou
meu pai a seguir avante na carreira militar.
Com o fim da participação pequena, mas heroica do
Brasil na Segunda Grande Guerra, papai, além de vários sargentos seriam
exonerados do Exército durante o Estado Novo, mas que depois de muitas batalhas
judiciais foram reintegrados à caserna, após a destituição de Getúlio Vargas em
1945, pelo General PEDRO AURÉLIO de Góis Monteiro, motivo pelo qual assim é meu nome.
Meu padrinho Capitão Frederico Schwanz
...
Frederico Schwanz e papai Floribal Farias Teixeira serviram juntos por mais de
20 anos na mesma Unidade do Exército, o 9º Regimento de Infantaria sediado em
Pelotas e quanto atingiram ao Oficialato foram transferidos para locais
distantes e diferentes, sendo meu pai transferido para o Arsenal de Guerra, em
General Câmara no Rio Grande do Sul e meu padrinho foi para Campo Grande, no
então Mato Grosso. Hoje Campo Grande é a Capital do Mato Grosso do Sul.
Meu pai sempre foi muito grato ao amigo
Frederico Schwanz.
(1) - Em outra oportunidade contarei sobre meu Tio Gumercindo e seu Padrinho João Francisco, é de chorar, pois foi triste e quase trágico.