Em 26 de fevereiro de 2012
publiquei neste meu blogue o post que passo a reeditá-lo, com o título de:
Houve um tempo
Transcrição de um trecho do
livro sobre minhas memórias ainda sem título.
O tempo passou como um carro sem freios decida abaixo, e já mocinho, com uns sete meses, estava no colo de meu pai, já que comecei a caminhar não tinha dez meses. Olhava fixamente para os seu enormes e alvos dentes e seu inconfundível bigode, quando ele se aproximou da porta da sala de jantar, que saía para o pátio lateral, conhecido mais tarde pelos meus irmão e por mim como o “lado”, e apontando com a sua mão direita mostrou-me algo, dizendo:
- Olhe. A Lua.
Impressionante!
Era uma visão espetacular.
Lua Cheia, noite límpida. Aquele clarão mais me encantava do que me dava medo.
Era uma visão fantástica.
Fiquei estarrecido. Meu
coração disparou e meu mundo não era só a casa, agora além da porta eu podia
ver aquilo que ele chamava de “Lua”.
De relancina meu irmão
Joaquim Luís, que naqueles idos de 46 já era um “homem feito”, com três anos,
passou correndo, pulando porta a fora e com ele minha irmã mais velha, Ieda de Lourdes,
já “adulta” com quase sete anos. Corriam, pulavam, gritavam e passavam por entre
as cercas vivas, que separavam nosso pátio do Corredor das Bochas.
Lua!
A Lua!
Era um tempo mágico e eu
começava a fazer parte daquela magia.
Um mundo mágico sob o clarão
da Lua.
Lembro claramente minha mãe
dizer:
- Não o leves para a rua!
Tem sereno!
Olhei em volta para ver o
que era o tal sereno, mas a coisa que mais me chamava a atenção era aquela
brilhante Lua, despojada, sorrindo para mim.
Encantado.
Seduzido.
Era a coisa mais linda que
já havia visto até então. Naqueles poucos minutos em que estivemos junto à
porta, olhando para aquela maravilhosa Lua, tão grande, tão brilhante, que insistia
em me manter a ela preso como se nada mais existisse naquele céu. Imensa
campânula de cristal negro que envolvia o meu mundo.
Eu e a Lua.
A Lua e eu.
A inocência e a beleza.
O puro encantado pelo extremamente
belo, atraente e mágico.
Vi mamãe aproximar-se,
delicada, sutil, pisando macio como um lince, como se flutuasse e silenciosa
abraçou-se a papai, com tanto amor, um amor que extravasava e sempre
extravasou, pois todos sabiam o quanto se amavam, e parecendo extremamente
submissa, encostou sua cabeça em seu ombro e ali ficou também contemplando a
Lua.
E a Lua, tão radiante e mágica, iluminava aquele casal e seus três filhos que eram tão felizes, dentro daquela ingenuidade pueril que um dia o tempo e as adversidades apagaram, mas não conseguiu apagar de nossas lembranças aquela união tão alegre, pura e romântica, que uma noite, sob o clarão irradiado por aquela mágica Lua, fazia ser nossa convivência tão harmoniosa quanto feliz.
Uma felicidade que o tempo
levou.
Uma felicidade que mesmo tão
distante faz, invariavelmente meus olhos marejarem de tanta saudade.
Saudade imorredoura.
Notas:
1 - De relancina, assim como
de vereda, de soco, num vu, num repente, no dialeto dos Gaúchos quer dizer
rapidamente, instantaneamente, no preciso momento.
2 – Mamãe e papai viveram
juntos por mais de setenta anos e eram extremamente apaixonados, mesmo quando a
velhice lhes consumia a vida, ela acamada e ele em uma cadeira de rodas ficavam
horas juntos, contemplando-se, de mãos dadas.
3. Corredor da Bochas era uma servidão de passagem que ligava a chácara do Sr Ricardo Stein com a rua em que morávamos e servia também cinco outras casa.

