Conhecer superficialmente um
Pelotense é fácil, basta perguntar:
- De
onde és?
Ou como ainda acontece,
inquirir o vivente olhando de cima:
- A
que família pertences?
Porém ser Pelotense requer
alguns atributos únicos.
Ser Pelotense é ter um dia
andado nos Autos Bons da Ligth, nos ônibus da STUR, ou ter utilizado os carros
de praça, principalmente do dez-dez, da Praça dos Enforcados, onde o Jari,
centro avante do Esporte Clube Pelotas,
era um dos motorista de aluguel.
Ser Pelotense é ter usado
calça ou pulôver com rim-rim, e desfilado com uma linda gravata comprada nas
Casas Paris-Londres para poder entrar no cinema, mesmo que fosse lá no Cine
Esmeralda, no Areal, usado polainas e chapéu da Fábrica de “Chapeos” Pelotense,
onde meu pai antes de ser militar trabalhou alguns meses e vestido um traje de
casimira inglesa ou tecidos da Fiateci - Cia de Fiação e Tecidos Pelotense.
Ser Pelotense não é só ter
comprado na Velocino Torres, e sim ter conhecido o Sr. Florindo Miranda,
proprietário, o Sr. Antônio Magalhães, o gerente e os Srs. Manoel Valente e
Osvaldo, ambos funcionário
administrativos, lembrando que o Sr. Manoel acabou associado da loja.
Ser Pelotense é ter um dia
feito um lanche no Ao Barquinho, e bem mais modernamente na Taperinha ou ido
para o Gato Preto, usando, se fosse menina um vestido de petit-pois e um
corpinho comprado na Casa das Sedas e se fosse um rapaz uma calça de Brim
Coringa e uma camisa Volta ao Mundo e sapatos da Casa Hercílio.
Ser Pelotense além de comer
docinhos do Beróla era comer “quéque” em plena praça central, assistindo o colombiano Celimo Montez Zuloaga, pedalando, dia e noite sua bicicleta sem parar por mais de 100 horas.
Ser Pelotense é ter marcado
um encontro na esquina da Bule Monstro ou ter frequentado o “A Vienense”, onde
se era atendido pelo próprio proprietário chamado Pedro. O gentil e sério Seu
Pedro, a única pessoa que vi tomando a sopa logo após de ter fartamente
jantado.
Ser Pelotense é ter comprado
medicamentos na Pharmácia Coelho da Costa, tomado Kautzeína, produzidas pela Farmácia Kautz para a dor de
cabeça, ou para se refrescar bebido uma gasosa da Telma, que tinha sua fábrica ali na Várzea ou mesmo ter uma vez
na vida entrado na Casa Rosa, na esquina do Canalete com a Andrade.
E é inegável que para ser
Pelotense deveria ter usado um cabungo, utilizado um mosqueiro, bebido água da
quartinha, escutado em uma galena sintonizada na PRC-3, o Paulo Corrêa comentando
um jogo do Bancário, ou mesmo seu concorrente Luís Carlos Martins da PRH-4.
Ser Pelotense é ter passeado
pela Pracinha do Porto e admirado o Gasômetro, passeado pela calçada do Anglo e
visitado o Club de Regatas junto ao movimentado porto, ou ter participado de um
convescote com os colegas do ginásio na Cascata ou na Z-3.
Parque Souza Soares
Ser realmente um Pelotense é ter assistido na Vila do Prado os ingleses, em suas roupas brancas jogando Golf, passado antes no Bar Tabajara, na Daltro Filho para comprar roupa-velha ou bolinho saúde e depois passeado pelo fleumático Parque José Alvares de Souza Soares vendo os ricos passear em suas Cabriolets, Faytons ou Traquitanas, ou uns mais privilegiados passeando em seus Ford’s de Bigode.
Ser realmente um Pelotense é ter assistido na Vila do Prado os ingleses, em suas roupas brancas jogando Golf, passado antes no Bar Tabajara, na Daltro Filho para comprar roupa-velha ou bolinho saúde e depois passeado pelo fleumático Parque José Alvares de Souza Soares vendo os ricos passear em suas Cabriolets, Faytons ou Traquitanas, ou uns mais privilegiados passeando em seus Ford’s de Bigode.
Ser Pelotense mais, do que
qualquer outro é ter saboreado uma Cerveja Haertel, ou Mário Sacco, e para
esnobar os mais novos ter bebido Cerveja Porco ou Peru, também da Haertel,
saída diretamente do engradado de madeira e para refrescar pedido ao garçom um
pedra de gelo que era posta direta no copo.
Ser Pelotense é ter comprado
long-play no Bazar Edson e ter sido atendido pelo gordo e simpático Sr. Armando, e bilhetes de loterias
no Índio da Sorte, usado para acabar com a caspa o escuro sabão Sarnartil da
Leivas Leite, ou entrado, ainda na madrugada na Bicha da Sudeste, ali na
Tiradentes para comprar carne.
Pai e Mãe.
1963. Fotografados pelo tradicional retratista da Rua
Andrade Neves e ao fundo a histórica Loja Velocino Torres.
Andrade Neves e ao fundo a histórica Loja Velocino Torres.
Ser Pelotense é ter sido fotografado pelo menos uma vez na vida pelo tradicional retratista que ficava ali na Andrade Neves retratando quem passasse, sendo que meu pai e minha mãe foram ao longo de muitos anos retratados diversas vezes.
Mozart Passos, quanta saudade.
Ou, para ser Pelotense, ter procurado o Foto Passos, para ter
fotos 3X4, aniversários, casamentos, batizados ou fotocópias de documentos,
cujo seu proprietário era o saudoso e divertido Mozart Passos que mantinha seu
atelier na Argolo nº 315, entre a 15 e a Andrade e que antes de se estabelecer
em Pelotas como fotógrafo, fora professor em Cruz das Almas e Açoita Cavalo,
casado com a doce, meiga e saudosa Dona Licínia, para os íntimos Lili
O grande e humanitário Médico Francisco Ribeiro da Silva.
Doutor Chico Louco.
Doutor Chico Louco.
Ser Pelotense é ter pelo menos
uma vez na vida sido atendido pelo Doutor Chico Louco ou pelo Doutor
Ferrerinha, aberto a boca para o Hélio Guerra que era dentista, ou comprado um livro na Livraria Echenique, ou ter visto o
Dirigivel Zeppelin ou as carruagens da Casa de Pompas Fúnebres Constantino
Ribeiro e Filhos.
E para alegrar, ser
Pelotense é ter um dia brincado nas Festas Burlescas, saindo no Jacaré do
Fragata, na Girafa da Cerquinha, no Espia Só, no Fica Aí, e se fosse “reculuta”
no Aguenta se Puder.
Ser Pelotense é ter recebido
em casa uma bela Frigidaire comprada na Casa do Agricultor e entregue em um carroção
puxado por belos percherons ou conhecido alguém que teve uma conta no Banco
Pelotense.
Charles Bronson no filme Montanhas Ardentes
Ser Pelotense é ter ficado impressionado com a travessia dos Zugspitz Artistens grupo de acrobatas, que atravessaram sobre um cabo de aço
do topo do Edifício Del Grande ao Rex Hotel, num ir e vir sufocante, extasiando
as milhares de pessoas que iam assistir suas performances e ficando com os
pescoços doídos de tanto olhar para cima e a cada passo nas alturas o povo
maravilhado deixava escapar um Ahhh de nervosíssimo
.
Ser Pelotense é ter visto os escombros do Cine Fragata, cujo
salão de espetáculos era todo feito em madeira, desabou em uma manhã, domingo
de Natal do ano de 1954 pouco antes de abrir as portas para a cessão das 10
horas, restando em pé, apenas às bilheterias e o hall de entrada que eram de
alvenaria, mas meses antes ter assistido nesse histórico cinema o belo filme
Montanhas Ardentes com Richard Widmark , Jefrey Hunter, Richard Boone e o jovem,
ainda sem muita expressão Charles Buchinsky, que apenas nesse ano passou a
assinar-se “Bronson”.
Charles Bronson no filme Montanhas Ardentes
Ser Pelotense é ter
utilizado para iluminar as noites escuras as Velas Lang ou lampiões a querosene
Jacaré comprado no Posto de Gasolina do Bubi e participado de Jogos de Snooker
no Club Dragagem cujo zelador era o Sr. Walter, conhecido como Baixinho e no verão ter tomado uma doce
raspadinha na “cidade” ou um belo picolé feito pelo Oliveira dono do Bar Flor de
Maio, ou passado no Armazém de Secos e Molhados do Sr. José Pederzolli Sobrinho e de Dona Celda,
pais da Zuleika, para comprar sorvete quente, Embaré, quebra-queixo e bulitas para, com os mandinhos da rua
jogar gaia.
Bar Flor de Maio, por nós conhecido como o Bar do Oliveira. Foto gentilmente cedida
pelo Senhor Avelino, filho de Oliveira.
pelo Senhor Avelino, filho de Oliveira.
Ser Pelotense é ter usado os serviços da Companhia de Melhoramentos Telefônicos e Resistência, ter sido vacinado pelo Seu Osório do Centro de Saúde onde também trabalhava a Dona Marina Barbosa da Silva, mãe do José Luís, do Rui e do João, ter conhecido o negro Rapadura, muitas vezes contando as lajotas das calçadas e o gordo negrão Feijão Azedo, puxando sua carriola, ou comprado laranja por cento do Roda Baixa.
Ser Pelotense e ter
conhecido, mesmo que de longe, muito longe o Zé Amaro, o feio Judite, o gordo Milóca ou o
fera Alfredinho, que acabou sendo assassinado, espetado por um estilete de abrir envelopes.
Ser Pelotense é ter
participado da UPES, estudado no Sales Goulart ou Dom João Braga e ter sido
aluno do Professor João Carpena, do Zé Olavo, da Heloisa e do Salada no Gonzaga e
ter lido o “Opinião Pública”.
Ser Pelotense é viver o
momento sem esquecer o passado, passado rico e pomposo, que com o tempo, para
muitos, caiu no esquecimento, mas os teimosos gostam de mantê-lo aceso. Aceso
como o incêndio do Mercado, aonde, para acabar com os saques que estavam
ocorrendo e a polícia não dava conta, o Coronel Antônio da Fonseca Sobrinho,
comandante do 9º RI, mandou uma companhia do Exército que estava em prontidão e
armada até os dentes, acabar com a balburdia, o que foi feito num instante,
pois bastou a milicada descer dos caminhões que o povaréu desapareceu das ruas,
permitindo assim aos valorosos bombeiros trabalharem em seu árduo ofício sem
problemas.
Enfim, ser Pelotense é ser
esnobe, chique e fleumático, mesmo sendo um pé-rapado.
Pior. Ser Pelotense é ter a
petulância, a ousadia, e a extrema coragem como eu tive de jogar xadrez com o “Mequinho”, o mestre dos mestres.
Bah meu! Não deu nem pra
saída.
Foi vergonhoso.
E depois desta...
FUI. (vermelho de vergonha, mas ousado e petulante).
OBS: Muitas coisas poderia ter colocado a mais neste relato saudosista, porém ficaria grande de mais e cansativo, porém quero enfatizar o prazer em ter feito duas correções em cor laranja no texto,(Casa do Agricultor e Resistência) duas correções sabiamente feitas pela atilada leitora SILVIA KING JECK, a quem agradeço merecidamente.
OBS: Muitas coisas poderia ter colocado a mais neste relato saudosista, porém ficaria grande de mais e cansativo, porém quero enfatizar o prazer em ter feito duas correções em cor laranja no texto,(Casa do Agricultor e Resistência) duas correções sabiamente feitas pela atilada leitora SILVIA KING JECK, a quem agradeço merecidamente.












